Pensata

Alcino Leite Neto

12/09/2005

Reconstruir ou não Nova Orleans

Um polêmico artigo na revista eletrônica "Slate" propõe que a cidade de Nova Orleans, devastada com a passagem do furacão Katrina, não seja reconstruída. Vale a pena ler o texto impiedoso, escrito pelo editor Jack Shafer (http://www.slate.com/?id=2125810&nav=tap1/). Ele sintetiza uma série de argumentos digamos conservadores, que vão agora se avolumando nos Estados Unidos contra a reconstrução desta cidade tão exuberante e atípica no país.

Nova Orleans se expandiu numa área geograficamente arriscada para a existência de uma cidade, uma espécie de declive, como uma "bacia", abaixo do nível do rio Mississippi, de um lado, e abaixo do nível do mar, do outro. Por que foi assim? Porque o local era estratégico comercialmente, com sua saída para o mar e, ao mesmo tempo, a embocadura para o Old River (velho rio, apelido do Mississippi).

Foi a colonização francesa, no século 18, que ergueu o primeiro povoado no local. Os negócios do algodão se expandiram no século 19 e alargaram a importância de Nova Orleans e do Mississippi. No início do século 20, a cidade virou um pólo petrolífero.

Hoje, quando se fala em Nova Orleans, pensa-se logo na história colonial, no jazz, na festa do Mardi Gras, na gastronomia creole e cajun. Pensa-se no turismo, em suma. Foi no que transformaram Nova Orleans, num centro turístico, desmontando boa parte de suas outras atividades produtivas e criando, assim, um dos maiores índices de pobreza e criminalidade dos Estados Unidos.

Estive em Nova Orleans há mais de dez anos, depois de uma visita a Dallas, no Texas. O contraste entre as duas cidades me causou tremenda impressão. Naquela época, era o auge da arquitetura pós-moderna. Quando avistei, chegando do aeroporto, o skyline de Dallas, com vários prédios novos em folha, feitos de vidro e metal, tive a sensação de estar dentro de um desenho animado dos Jetsons. A cidade, ela mesma, vista ao nível das ruas, era menos futurista, com os serviços banais e organizados, as avenidas largas e enjardinadas, tudo regido pela monotonia muito própria dos aglomerados anglo-saxões.

Fiquei num hotel no centro da cidade. Na hora do jantar, nos levaram de van para fora da cidade, atravessando viadutos complicados e highways, até um local onde havia uma rua que concentrava vários restaurantes, um ao lado do outro, todos muito grandes e vistosos, com néons fulgurantes e o barulho da música country. Além daquela rua, reinava no escuro a vastidão das terras texanas.

De volta ao hotel, já quase meia-noite, resolvi ver a vida noturna do centro de Dallas. Fui rumo a um lugar, onde, de dia, tinha visto certo movimento. Durante meia hora, caminhei em ruas desertas e vazias. De vez em quando, passava um carro, e seus tripulantes me olhavam suspeitosamente. Parecia que eu era o único a caminhar no centro de Dallas naquela hora.

Ao dobrar uma esquina, enxerguei ao longe a figura de um guarda, parado na calçada. Pensei: vou perguntar a ele onde posso encontrar algum canto movimentado. Fui na sua direção e, enquanto me aproximava, aumentava minha estranheza com aquela figura que não se mexia nunca. Ao chegar suficientemente perto, percebi que o policial era na verdade uma estátua. Não apenas minha miopia havia me traído, como também a perfeição de detalhes com que esculpiram a figura. Voltei para o hotel, contando os passos pelas ruas daquela cidade fantasmática, transumana.

No dia seguinte, partimos para Nova Orleans. No caminho, íamos parando em locais históricos: uma cidadela famosa do tempo do faroeste, um pequeno museu da escravidão, depois uma fazenda de algodão do século 19, outra fazenda ainda maior, que lembrava a de "E o Vento Levou.".

Era como se estivéssemos fazendo o caminho inverso, do futuro para o fundo do passado, até chegar a Nova Orleans, este coração da história norte-americana. Mais ainda: era como se, ao longo da viagem, fôssemos descascando as camadas do puritanismo até alcançar este ponto, Nova Orleans, onde a cultura se derramava em surpreendente sensualismo, dia e noite, desde a música até a culinária, aberta a uma multiplicidade de estímulos, de misturas, de fusões, de desregramentos.

Quando se fala em não reconstruir Nova Orleans é um pouco disto que se trata, no fundo: de ficar livre desta encrustração que resiste tanto à norma puritana; de se desvencilhar do passado teimoso que resiste nesta cidade, com suas lembranças de uma América impura, aberta, mestiça e sem-vergonha.
Alcino Leite Neto, 46, é editor de Domingo da Folha e editor da revista eletrônica Trópico. Foi correspondente em Paris e editor do caderno Mais! Escreve para a Folha Online quinzenalmente, às segundas.

E-mail: aleite@folhasp.com.br

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