Reuters
22/08/2001 - 20h32

EUA sabiam do genocídio em Ruanda desde o início

da Reuters, em Washington

Documentos norte-americanos que acabam de ser liberados ao público mostram que autoridades do país sabiam desde o princípio quem estava por trás do genocídio em Ruanda, ocorrido em 1994, e evitaram usar essa palavra para descrevê-lo porque o país seria obrigado a intervir.

O material, centenas de páginas divulgadas nesta semana por um grupo de pesquisa da Universidade George Washington, mostra que o país sabia o que estava acontecendo em Ruanda, quando 800 mil tutsis e hutus moderados foram assassinados por guerrilheiros hutus, depois que o avião do presidente Juvenal Habyarimana foi derrubado, em 6 de abril de 1994.

"Até agora só podíamos especular sobre o que as autoridades norte-americanas sabiam do genocídio e o que diziam nos âmbitos diplomáticos restritos", disse hoje William Ferroggiaro, diretor do grupo de pesquisa National Security Archive.

Em uma visita a Ruanda em 1998, o então presidente Bill Clinton esteve perto de um pedido de desculpas ao reconhecer que a comunidade internacional "não fez o que podia e deveria fazer para tentar limitar o que aconteceu".

Ferrogiaro disse que os documentos demonstram que, três semanas depois de iniciado o genocídio, os Estados Unidos já haviam questionado um de seus principais responsáveis, o coronel Theoneste Bagosora, chefe de gabinete do Ministério da Defesa de Ruanda.

Em um telegrama do Departamento de Estado às embaixadas norte-americanas, a diplomacia americana afirmava ter entrado em contato por telefone com Bagosora em 28 de abril pedindo a ele que parasse o massacre e relatando testemunhos do envolvimento dos militares ruandeses nos crimes.

"Esse documento é a prova de que se sabia quem estava perpetrando os assassinatos e de que houve alguma iniciativa do médio escalão dos EUA, mas nada foi feito além disso", afirmou Ferroggiaro.

Fracasso

A ONU preparou em 1999 um relatório sobre Ruanda em que reconhece seu fracasso no caso e acusa os Estados Unidos de terem adiado o envio de uma pequena força de paz.

Horas depois da queda do avião de Habyarimana, um memorando escrito por Prudence Bushnell, vice-responsável por assuntos africanos no Departamento de Estado, dizia ser "altamente provável" o surgimento de violência generalizada.

Vários documentos discutem se a palavra "genocídio" se aplicava ao caso. Seu uso foi autorizado em 21 de maio de 1994, mas os diplomatas levaram mais três semanas para empregá-la publicamente.

O principal empecilho para usar a palavra estava em uma convenção de 1948, que impõe aos países o dever de "prevenir e punir" os genocídios.

Outro documento demonstra que havia sinais anteriores da violência. Um fax enviado a embaixadas ocidentais pelo comando militar da ONU em Ruanda, em 11 de janeiro de 1994, alertava para esconderijos de armas, um plano para matar soldados belgas e parlamentares de Ruanda e uma lista de tutsis que deveriam ser mortos.

O Ocidente recusou-se a atacar os depósitos de armas e sugeriu ao comandante da ONU que dissesse o que sabia ao governo.
 

FolhaShop

Digite produto
ou marca