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25/02/2003 - 03h38

Leituras Cruzadas: Produção cultural atravessa o samba

PEDRO ALEXANDRE SANCHES
da Folha de S.Paulo

É tempo de Carnaval e de samba, não é tempo de ler. Deve ser esse o raciocínio editorial brasileiro, já que, como sempre, neste mês de fevereiro pipocam alguns poucos livros de reflexão e estudo sobre temas tão centrais da cultura nacional que vêm se somar à também rala bibliografia geral sobre eles. à também rala bibliografia geral sobre eles.

Fotos Reprodução
Membros da corte africana dos cucumbis no Carnaval de 1868, em foto de Christiano Jr.

Marginalizado talvez pela própria natureza, o debate sobre as imbricações entre o Brasil e o samba (ou, de modo mais geral, sobre as diversas manifestações musicais de Carnaval) só tem feito encolher mais e mais. Quase sempre que ocorre, centra-se no surrado e aparentemente intransponível embate entre os cultores puristas de samba e tradição, pelo lado da "pureza", e os correntistas pós-bossa nova e pós-tropicalismo, pela trincheira da "contaminação".

Assim, por exemplo, a bossa nova é celebrada como evolução do samba pelos antipuristas, mas porque o baiano cosmopolita João Gilberto europeizou o sotaque nordestino ou porque o estilo novo trouxe (no longínquo 1958) odores de jazz e valsa vienense ao samba.

Na sequência, o tropicalismo submeteu o(s) samba(s) a lógica equivalente, dessa vez forrando o tamanco com veludos de rock'n'roll e guitarras.

No Brasil, o rock pisoteou o samba a partir dali (nunca o contrário), e os próprios tropicalistas têm gastado parte de suas carreiras tentando relativizar e retificar aquela distorção de origem.

Por sinal, um dos mais diretos e aprofundados estudos a respeito dessas relações, operado pelo antropólogo Hermano Vianna, hoje colaborador direto de Gil no MinC, é "O Mistério do Samba" (Jorge Zahar/UFRJ, 1995, 193 págs., R$ 25), que misteriosamente está sumido das estantes das livrarias.

Ali Vianna questiona a idéia de que o samba seja um gênero autenticamente nacional —para tanto, toma como mote e ponto de partida um encontro harmonioso, em 1926, da elite intelectual/erudita de Gilberto Freyre e Heitor Villa-Lobos com a nata intuitiva e popular de Pixinguinha, Donga e Patrício Teixeira.

O samba surgiria como símbolo de identidade e unidade nacional a partir daquele evento simbólico, como uma construção ideológica que passava por Gilberto Freyre e Getúlio Vargas (e pelo Ary Barroso de "Aquarela do Brasil"). A compreensão do samba como autóctone do patropi seria um mito, não um fato.

Ilustração publicada na revista "Fon-Fon" de 1922
Vianna não foca sobre a questão hierárquica, mas em sua visão pós-tropicalista está embutida, uma vez mais, a submissão do inculto pelo culto, a vitória invasiva do europeu sobre o africano. Pixinguinha se escraviza a Gilberto Freyre, como habitual desde tempos imemoriais.

Aos sambistas de pé no chão, resta o molejo na sola do chinelo, na pista do Sambódromo carioca, nas ruas recifenses de frevo e na pipoca dos trios elétricos axé da Bahia. E, para chegar até eles pela via do conhecimento escrito e/ou acadêmico, tem-se que viajar à outra ponta perversa desse mesmo processo.

Nas obras entregues no Carnaval de 2003 às livrarias, predomina o pensamento produzido de dentro pelos puristas do samba em carne e osso —pelos apaixonados do outro lado da cerca de arame farpado do isolamento social, enfim.

Exemplo disso é o relançamento de "Carnaval - Seis Milênios de História" (Gryphus, 597 págs., R$ 61), pomposo desde o título. O autor, Hiram Araújo, é descrito na contracapa como "um dos maiores historiadores de Carnaval do país", que "atua como colaborador cultural da Riotur e da Liga Independente das Escolas de Samba do Rio de Janeiro". O presidente da liga (e, portanto, da bem conhecida decadência dos sambas de escola) em pessoa ocupa o prefácio para festejar o autor.

O catatau de quase 600 páginas promete um mergulho profundo, mas o leitor desavisado logo bate a testa no chão de piscina vazia. Uma "planilha dos resultados dos concursos" das escolas cariocas de samba ocupa 254 das 597 páginas. Ao Carnaval "originário", "pagão" e "cristão clássico" são destinadas 41 páginas. O resto é o Carnaval "cristão pós-moderno", sobre o qual o livro se debruça com propriedade.

Trabalho minucioso de pesquisa, "Carnaval - Seis Milênios de História", no entanto, desqualifica seu próprio título só por essas descrições prévias. Prevalece a imagem de que, visto de dentro e com paixão, o Carnaval é só festa, virtude e indulgência. Ponto para os inimigos da tradição.

Ainda no campo do purismo, chega também o livro "Sambeabá - O Samba que Não se Aprende na Escola" (Folha Seca/Casa da Palavra, 192 págs., R$ 28), do estudioso (e sambista) carioca Nei Lopes.

Charge publicada na revista "Careta", em 1939
Mesmo conservando a irredutibilidade "purificadora" de quem compôs para Clara Nunes, Jair Rodrigues, Roberto Ribeiro, Beth Carvalho e João Nogueira, Lopes traça uma cronologia concisa e abrangente do samba, partindo da origem entre os bantos africanos e parando antes do advento do pagode mauricinho dos anos 90, de grupos como Só pra Contrariar.

Sua posição purista exprime uma crítica clara: a assimilação e diluição do rhythm'n'blues pelos grupos dos 90 não pode ser incorporada à história do samba. Mas nisso se esquiva de historiar o samba isentamente: tal pagode pertence àquela história, sim, ainda que sob a lógica indesejada por Lopes, da submissão do saber de origem africana, terceiro-mundista, às modas norte-americanas de divas melosas do tipo Whitney Houston.

No meio do tiroteio, resistem pesquisadores de meio de caminho, que não se alinham automaticamente a nenhum dos dois fronts, como é caso da historiadora da Unicamp Maria Clementina Pereira Cunha, em "Ecos da Folia - Uma História Social do Carnaval Carioca entre 1880 e 1920" (Companhia das Letras, 2001, 396 págs., R$ 46).
De plumagem parecida é "Feitiço Decente - Transformações do Samba no Rio de Janeiro (1997-1933)" (Jorge Zahar/UFRJ, 2001, 247 págs., R$ 26), do professor de etnomusicologia Carlos Sandroni.

Como se percebe pelos títulos, os ricos estudos param em certo ponto, não invadindo a modernidade nem, muito menos, a contemporaneidade. Essa parte, a mais polêmica e complexa, fica resguardada no desinteresse geral por conciliar samba no pé e na ponta do lápis.

Cai-se na constatação de que, salvo iniciativas dispersas como a "História do Samba" (que circulou entre 1997 e 1998, pela editora Globo, em fascículos de banca de jornal que vinham acompanhados de esclarecedores CDs da BMG), não se fez ainda no Brasil uma varredura sistemática pela história do samba e/ou por todas as suas variantes e subconjuntos.

Identidade brasileira natural (como quer Nei Lopes) ou construída (como acredita Hermano Vianna), o samba permanece tomando friagem no sereno. Não desperta a atenção dos "isentos", que não vêem nele e em suas variações matéria digna de estudo (e de comercialização editorial). Mas também escorre pelos dedos dos "apaixonados", que não conseguem sair de seu próprio corpo para ver de fora as formas, deformações e cirurgias plásticas de seu objeto de culto, crença e amor.

Resulta daí que, à parte os citados (e sempre interessantes) exemplos literários de exceção, ainda é preciso recorrer ao ouvido para ouvir e fruir (e refletir sobre) o samba e os sambas.

As gravadoras de discos até imitam as editoras de livros no grau de (des)interesse, com ligeiríssima vantagem em quantidade. Enquanto Zeca Pagodinho continua fazendo (e vendendo bem) seu samba rebelde que não deixa de ser filho enjeitado da bossa e da tropicália, apenas a BMG aproveita a folia para cutucar baús empoeirados.

Gravadora que mais parece se importar com o samba (já relançou na íntegra seus catálogos de Beth Carvalho e Alcione), a BMG traz de volta agora dez títulos de Martinho da Vila gravados entre as décadas de 70 e 80 (os iniciais, lançados entre 69 e 73, já estavam em catálogo).

Na ausência de reedições significativas das obras de Elza Soares, Paulinho da Viola, Clara Nunes e Roberto Ribeiro (todas em poder da EMI, que se paralisou nas altamente abrangentes caixinhas "Apoteose ao Samba", de 1997), Martinho carrega o fardo de explicar sozinho a história do samba. Não consegue, é evidente, mas sua coleção não deixa de ser mais ilustrativa que tudo de que se falou até aqui.

Mais surpreendente é que, mesmo com toda essa ventania na cara, o samba continue a florescer, até entre os mais jovens. Dois discos lançados em 2002 por selos pequenos estão (ou deveriam estar) em circulação nacional para, mais uma vez, evidenciar a polarização vitalícia do samba entre os puristas e os pós-modernos.

Um deles é o duplo "A Música de Paulinho da Viola" (Deckdisc), da sambista carioca Teresa Cristina com seu Grupo Semente. Primeira revisão em regra da obra de Paulinho por outro intérprete, o álbum investe na delicadeza de releitura e na visão tradicional, mas como a que o próprio homenageado ensinou ao Brasil: a batida e a voz macia de João Gilberto até existem, mas elas é que se subordinam ao samba, e não o contrário.

De tendência inversa é "Pé do Meu Samba" (Natasha), de Mart'nália, filha de Martinho da Vila. Orientado pelo antipurista Caetano Veloso, o disco vaza o samba para samba-canção, afro-samba, bossa nova, clube da esquina, samba de Caetano... A espontaneidade borbulhante de Mart'nália parece algo contida, mas a força mítica da sambista triunfa no final, como acontecia nas macumbas de Clara Nunes. Desde que o samba é samba é assim.

Ataques mais frontais aos cânones do gênero têm vindo, entretanto, das bandas de Recife e de Olinda, num rol extenso de trabalhos e grupos que levam "samba" no nome (a conspiração Bonsucesso Samba Clube, o Samba pra Burro, de Otto, o Radio S.Am-b.A., da Nação Zumbi, o Samba Esquema Noise e o Carnaval na Obra, do Mundo Livre S/A), mas que se agrupam sob o rótulo pós-moderno de mangue beat.

Apesar da profusão na nomenclatura, integram um conjunto que é bem mais tropicalista que sambista. Servem-se de uma cornucópia de elementos (hip hop, funk, música eletrônica, coco, maracatu, jovem guarda, rock independente etc. ), na qual o samba (ou melhor, a identidade nacional) é apenas um componente da imagem-símbolo daquela cena —a antena parabólica enfiada na lama do mangue fedido.

Se o conceito é antropofágico/tropicalista por excelência, pelo menos num fator os mangue boys são mais "sambistas" e mais avessos às hierarquias habituais —desistiram do eixo Rio-SP e arredaram pé na terra natal, acostumaram-se a produzir de forma independente e com circulação limitada e fomentam uma cena que é crescente, local e tem dificuldade intrínseca de se universalizar.

Num trabalho recentíssimo de possível fronteira, entretanto, o pós-mangue beat Silvério Pessoa (ex-líder do grupo Cascabulho) dá um passo inédito de transição, quem sabe rumo a um futuro novo paradigma. Seu disco "Batidas Urbanas - Projeto Micróbio do Frevo" (independente, informações pelo e-mail bateomanca@uol.com.br) se debruça sobre o Carnaval brasileiro sob enfoque e ótica absolutamente inesperados.

Em primeiro lugar, o disco é um tributo à obra de frevo de Jackson do Pandeiro, tradicionalmente lembrado como forrozeiro. De um golpe só, Pessoa reivindica o resgate, a partir do amplo esquecimento, de Jackson para o frevo e do frevo para o Carnaval brasileiro. O samba, para ele, é frevo, e o título do CD (recolhido de canção de Jackson) já é muito elucidativo do confinamento e da desvalorização a que subgêneros regionais da música popular brasileira são submetidos, até mesmo pelo sempre vitimizado samba.

Em segundo lugar, "Micróbio do Frevo" contamina o frevo de um elenco gigantesco de referências, de rock pauleira a tecno, de raggamufin a hip hop, de samba a pop, de bossa nova a funk carioca.

A reversão? Seu "Micróbio" é, ainda assim, um disco de "puríssimo" frevo, que Capiba e Nelson Ferreira talvez fizessem se fossem vivos e jovens (na mesma lógica em que o rapper Marcelo D2, do Planet Hemp, se apóia para afirmar que Noel Rosa estaria fazendo rap se vivesse nos dias de hoje).

O frevo de Pessoa é de alto teor de contemporaneidade, mas nunca expressa submissão. Rock, funk, hip hop e electro lhe servem para pedir supremacia ao frevo, um gênero arraigado (natural ou ideologicamente, não importa) e abandonado como tipicamente brasileiro subnutrido, carente, terceiro-mundista —e finamente inteligente e sofisticado.

É algo que nem os puristas nem os pós-modernos percebem, empenhados que estão em brigar e discordar (em voz bem baixinha), e que a literatura e a academia brasileiras ainda não cuidaram de abordar. Se ainda dará samba esse possível próximo paradigma? Só pagando para ver, ler e ouvir.

Pedro Alexandre Sanches, 34, é repórter e crítico musical da Folha e autor do livro "Tropicalismo - Decadência Bonita do Samba" (Boitempo, 2000).

Leia mais
  • Leia capítulo do livro "Sambeabá"
  • Leia trechos de "Carnaval
  • Seis Milênios de História"
  • Leia introdução de "Blocos"

         

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