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25/02/2003 - 03h36

Leia capítulo do livro "Sambeabá"

da Folha de S.Paulo

Leia abaixo o primeiro capítulo do livro "Sambeabá - O Samba que Não se Aprende na Escola" (Folha Seca/Casa da Palavra, 192 págs., R$ 28), de Nei Lopes.

Pra começo de conversa

Este é um livro sobre o samba, gênero matriz da música popular brasileira e sua corrente principal. Um livro que não é tese, não é ensaio, não é história, e, sim, o registro apaixonado de uma vivência de quase meio século. Um livro sem isenção, que certamente comete omissões e até injustiças, mas sempre involuntárias. E que retoma, ampliando, um raciocínio esboçado em 1981, com O samba na realidade, editado pela brava e saudosa Codecri.

Saiba, então, o leitor: o samba de que trata este livro é aquele mesmo que, nos anos 1970, depois de ter gerado a bossa nova (que o renegou) e de ter pautado a vertente menos internacionalizada desse estilo, foi discriminado pela chamada música universitária — a qual, assim rotulada com objetivos claramente discriminatórios, acabou por fazer nascer a sigla MPB.

A partir dessa sigla, os sambas compostos por autores filhos da burguesia e, em geral, com formação universitária, deixaram de ser vistos como samba. Ao mesmo tempo, até os mais veementes protestos cantados contra a ditadura americanófila que nos oprimia eram entoados no compasso do que então se conhecia como rock balada.

Já nessa época, a indústria fonográfica transnacional vinha tentando o acasalamento do samba com o pop internacional e a utilização, na produção sambística, de novas tecnologias, como samplers e teclados computadorizados, o que, segundo ela, redundaria num salto qualitativo e faria o samba trilhar o caminho inverso ao da obscuridade.

Mas o bom samba não entrou nessa e seguiu seu próprio caminho, dando mostras de grande vitalidade a cada década que passava. Enquanto isso, a música sertaneja virava tex-mex (híbrido de música texana e mexicana), o som politizado dos blocos afros alienava-se em axé music, parte da música nordestina se atolava no manguebit. até que a indústria do disco, no desespero de submergir o samba no oceano pop, inventou o neopagode.

O samba que motivou este livro é hoje tese de mestrado, lota os auditórios das universidades, provoca intensas discussões na internet.

Não falo do samba das escolas, que vem dando preocupantes sinais de esgotamento. Refiro-me a esse que corre — subterrâneo, mas caudaloso — nos catálogos dos independentes e fora da grande mídia; que só tem como palco os botequins, os fundos de quintal e os redutos alternativos. E que, entretanto, é o traço mais marcante da identidade carioca e um dos mais valiosos patrimônios da cultura nacional.

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  • Leituras Cruzadas: Produção cultural atravessa o samba
  • Leia trechos de "Carnaval
  • Seis Milênios de História"
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