Folha Online sinapse  
25/03/2003 - 03h20

A chance (maior) do autodidata

SUZANA BARELLI
free-lance para a Folha de S.Paulo

Se a virada na vida a partir dos 50 costuma ser precedida pela acumulação de algum conhecimento não associado à profissão, esse conhecimento, por sua vez, resulta com frequência de uma atitude autodidata.

O autodidata é, antes de mais nada, um curioso. Ele frequenta bibliotecas de forma sistemática, sempre se pergunta o porquê das coisas e tenta descobrir as respostas por conta própria. "Eles pesquisam em vários livros, até descobrirem o que querem saber", afirma Marfísia Lancellotti, diretora técnica da Biblioteca Mário de Andrade, de São Paulo.

O ponto de partida são as enciclopédias ou os dicionários, mas eles não param por aí. Logo fazem o levantamento bibliográfico e passam a pesquisar em livros, jornais, arquivos e em publicações específicas. Também se valem da troca de correspondência.

O meio, por vezes, é mais importante do que o fim. Para o autodidata, o processo da busca de informação chega a ser mais gratificante do que a obtenção do dado procurado, acredita Silvia Gasparian Colello, professora da Faculdade de Educação da USP.

Para pessoas com esse perfil, o livro é fonte preferencial de novos conhecimentos. Mesmo a internet, que abriu um vasto campo de pesquisa on-line, não reduziu o interesse pelo livro entre os autodidatas. "Eles sabem que muito da informação da internet vem do livro", diz Marfísia. Mas a rede é importante aliada na busca por informação. "O autodidata sabe que o livro é soberano, mas não é a sua única fonte de informação", afirma.

A exigência de diplomas faz com que o autodidata, hoje, canalize seu interesse para um hobby, ao contrário dos antigos, que desenvolviam o seu conhecimento sozinhos e não precisavam de um diploma para filosofar ou criar suas teorias. O hobby traz a vantagem de ser uma pesquisa descompromissada, em que o ritmo de estudo e a sua profundidade é dada pela disponibilidade de tempo da própria pessoa. Em consequência, eles costumam saber do seu hobby até mais do que a própria profissão.

Outros começam a estudar pela necessidade de complementar a sua formação acadêmica fora da sala de aula, diz o professor Alípio Casali, da PUC-SP. Fora da academia, criam seus próprios métodos de estudo (ser metódico é um traço da personalidade dos autodidatas) e não abandonam mais a busca pelo autoconhecimento. Alguns acabam se tornando generalistas, daqueles que sabem um pouco sobre tudo. "Mas são uma exceção", acredita José Eduardo Soares de Castro, bibliotecário e coordenador do Colégio São Paulo. "A maioria é de conhecedores profundos dos assuntos que gostam", afirma.

Como alguém se torna autodidata? Um bom começo é não abandonar a curiosidade infantil, na opinião do professor Sérgio Antônio da Silva Leite, da Universidade de Campinas (Unicamp). Ele acredita que os autodidatas tiveram, entre a infância e a adolescência, uma relação afetiva, com um professor, parente ou amigo, que lhes motivou o gosto pelo conhecimento.

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