Folha Online sinapse  
26/08/2003 - 02h38

Polêmica: E o futuro da escola pública?

LUIZ PAULO LABRIOLA
especial para a Folha de S.Paulo

É difícil dar a mesma resposta a perguntas diferentes. A capa do último Sinapse anunciava: "O futuro da escola" segundo alguns educadores e pensadores. Já na manchete da matéria se lia: "Como será a educação da próxima geração".

Editoria de Arte/Folha Imagem

O futuro da escola e o da educação não necessariamente coincidem. É possível, para alguns, educar-se sem escolas. Aliás, nunca se falou tanto em formação fora da escola. Inspirada no mote "empregabilidade" do mundo do trabalho, a palavra de ordem "educabilidade" invade discursos educacionais: é preciso propiciar a si mesmo o máximo de oportunidades de acesso a conhecimentos e informações que permitam desenvolver "novas habilidades" e "condutas mais flexíveis", dizem certos gurus da área, que entendem educação apenas como preparo para o mundo do trabalho.

Nesse caso, o futuro da "educação" já começou: para pessoas das classes média e alta, educar-se em espaços de trabalho, em relacionamentos, em viagens e na mídia há muito tempo deixou de ser "proposta". As oportunidades "educacionais" se desinstitucionalizam rapidamente.

Mas, quando se fala de escola, a predição é problemática. Os especialistas ouvidos pelo Sinapse apontaram a dificuldade e não se curvaram à futurologia. Falaram mais do presente, como Agueda Bittencourt: "Daqui a 25 anos, deveremos ter uma escola ainda em sintonia com os avanços sociais e culturais que formos capazes de gerar". Ponto.

Os não-especialistas se entregaram ao vaticínio. Suas projeções soam como presa fácil da voga novidadeira típica do mercado de profecias que vê na educação um produto rentável: escolas "oficinas" que educam a "curiosidade e a imaginação"; "redes", "blogs", "telecentros" e "Paulo Freire digital"; "experimentos" a partir de "problemas vitais"; "ruptura total com a sala de aula e a turma"; "as crianças no poder"; "chips" que permitem a "entrega do conhecimento", "trabalhos em multimídia" e "cursos automatizados" pela internet, "artes e filosofia" ocupando "espaço nobre" e "salas de aula virtuais". Grandes "sacadas" que já estão no mercado e não diminuíram a angústia quanto ao futuro da educação. E da escola.

Porém, antes de ser tomada como preparo para o mundo do trabalho, a educação sempre foi vista como um compromisso de aquisição da condição humana mediante uma iniciação ao universo das representações acerca do mundo herdadas por gerações passadas, lembra o filósofo da educação Michael Oakeshott (1901-1990). Essa herança, para ele, é objeto de uma "transação entre gerações" na qual "o postulante à condição humana aprende a se reconhecer como ser humano mirando-se no espelho da herança de atividades e entendimentos humanos".

Nesse sentido, há uma única situação em que educação e escola são inseparáveis: quando se pensa na educação de classes de baixa renda. O futuro de sua educação dependerá do futuro da escola pública. Para entender isso, é preciso lembrar como ela nasceu no Ocidente.

Inspirada no ideal revolucionário de busca de igualdade civil, a Terceira República francesa viu na criação da instrução pública um recurso especial para eliminar o monopólio de detenção e transmissão do saber mantido pela Igreja Católica e pela aristocracia. Condorcet (1745-1794) apontava para a necessidade de "transmitir a todas as crianças os saberes estratégicos voltados ao desenvolvimento intelectual, e não à utilidade imediata".

O Estado foi escolhido como gestor de uma política escolar voltada a diminuir drasticamente a desigualdade educacional. Sem igualdade de acesso à educação, diziam, não haveria nunca igualdade de direitos e, sem esta, não poderia existir democracia. Foi aquele projeto de escola pública laica, obrigatória e gratuita que, inicialmente a serviço do acesso da burguesia ao poder político, propiciou a filhos de operários e de camponeses a aquisição de uma instrução básica que valorizou sua força de trabalho e eliminou o trabalho infantil forçado.

O projeto brasileiro de escolarização pública herdou esse ideal. Nossos pais e avós gostam de falar de uma escola pública "forte" que teria existido no Brasil há cinco ou seis décadas. Sabemos hoje que essa escola nunca existiu, já que abrigava apenas filhos de classes abastadas, severamente treinados para tolerar o militarismo pedagógico vigente, e punia "desvios" com repetência. Nos anos 60, a rede estatal, pressionada para superar seu elitismo e atender todas as classes sociais, viu-se diante de dois genuínos desafios públicos: fomentar o convívio na diversidade e combater a evasão.

Passadas quatro décadas, a rede estatal ainda não superou esses desafios. Mas é ela que acolherá os repetentes e os inadimplentes da rede privada —estes, em contingente que cresce em progressão geométrica. É ela que terá de educar os pobres, também cada vez mais numerosos. Em suas escolas, em 2002, estavam matriculados 44 milhões de jovens e crianças. Na rede privada, 6 milhões. A escola pública terá de ser a educadora do Brasil.

Cada vez mais ausente das políticas públicas, enfraquecido e privatizado, como o Estado brasileiro cumprirá essa tarefa? A cada ano com menos tempo e recursos para investir em formação contínua, como os professores da rede estatal lidarão com suas notórias defasagens de formação? O que essa clamorosa demanda brasileira tem a ver com o mercado das novidades?

Luiz Paulo Labriola, 45, é pesquisador em filosofia da educação pela USP, especialista em ensino médio e docente em cursos de formação de professores nas redes municipais de São Paulo e Itatiba (SP).
E-mail: lplabriola@uol.com.br

     

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