Folha Online sinapse  
27/01/2004 - 03h24

Leia troca de cartas entre Guimarães Rosa e tradutor alemão

da Folha de S.Paulo

Leia abaixo uma troca de cartas entre o escritor brasileiro João Guimarães Rosa e seu tradutor alemão, Curt Meyer-Clason. As cartas são trecho do livro "João Guimarães Rosa: Correspondência com Seu Tradutor
Alemão Curt Meyer-Clason" (Nova Fronteira, 448 págs., R$ 49), citado na seção "Leituras Cruzadas" no Sinapse nº 19 (27 de janeiro de 2004).

23
CURT MEYER-CLASON
München, 30 de agosto de 1963.
Gundelindenstr. 16
T.: 33-52-10

Mui prezado amigo e Senhor Guimarães Rosa,

Interrompo meu trabalho de tradução de
Grande Sertão para lhe exprimir a alegria e o entusiasmo que minha mulher e eu sentimos quando o Mário Calábria nos informou que o amigo foi eleito unanimemente para a Academia Brasileira de Letras. Devo confessar que para mim, pessoalmente, não foi nenhuma surpresa, porque como poderia ter sido de outra forma? Mesmo assim, foi uma satisfação toda pessoal para mim. O Mário me disse que o senhor anda foragido do Rio, o que me parece muito plausível, em vista do "Tohuwabohu" que está sendo levado em torno de sua pessoa.

Devo agradecer-lhe, de viva e entusiasmada voz, por suas longas, explicativas, informativas cartas de 17 e 28 de junho, acerca dos problemas da tradução inglesa que não li — propositadamente. Mesmo assim, suas indicações me foram, me são e me serão de valor superior, sugestivo e significativo. Não quero, não posso dizer mais no momento.

Meu trabalho está progredindo lento, mas seguro. Espero poder confirmar-lho mediante meu manuscrito de tradução, pelo fim do ano, que compreendi e intuí o que o amigo, com tanto cuidado, com tanta paciência amistosa me veio explicar nas suas circunstanciadas linhas.

Para hoje receba o meu abraço, cheio de orgulho e satisfação pelo fato de poder participar, indiretamente, na grande homenagem reservada ao amigo pelo seu grande país. Todo sinceramente seu, fiel no VERBO DO SERTÃO ,

Curt Meyer-Clason


24
CÓPIA

Rio de Janeiro, 14 de outubro de 1963.

Prezado Amigo Sr. Meyer-Clason,

Com prazer, respondo à sua, cordial e simpática, de 30 de agosto, que me alegrou bastante pela retomada de contato e pelas prometedoras notícias.

Muito agradeço, festivamente as felicitações por motivo da eleição para a Academia. De fato, andei fugido e escondido, um pouco, por causa dela. Foi mesmo uma distinção que marca e conta; mas, ao lado disso, como sempre com essas coisas, grossa e inquietadora no seu externo acontecer. E eu, que já carrego em mim um incessante e exaustivo pandemoniozinho particular, não agüento muito bem qualquer agitação de fora. Diria, como Paul Valéry2: "Les événements m'ennuyent"... Enfim, a onda passou, restabelece-se o ar normal em torno, a santa, confortável, inestimável e macia monotonia.

Soube, também, que conta entregar pronto, até o fim do ano, o texto traduzido do Grande Sertão: Veredas. Isto me entusiasma. De todas, será a alemã a versão mais bem realizada, a melhor — tenho a certeza. Nada vale mais, em assuntos assim, que o parentesco anímico, as afinidades de espírito. E agrada-me o que me diz, que aquelas minhas duas cartas tiveram alguma utilidade.

Tenho também notícias boas. A tradução francesa do Grande Sertão: Veredas já está praticamente pronta; a do mesmo, para o espanhol, vai ter início; a do Corpo de Baile para o italiano já ultrapassou a metade; o Primeiras Estórias já está sendo traduzido para o espanhol e para o francês; o Sagarana, para o inglês. E etc. etc. Com tudo isto, rejubilemo-nos.

E receba o melhor, abraço3 muito cordial e grato, do

Notas:
1 Manuscrito na margem esquerda.
2 Poeta e escritor francês (1871-1945), eleito para a Academia Francesa em 1925.
3 Abraço, deduzido pelo constante em outras cartas originais em que o autor acrescenta a despedida em manuscrito, o mesmo para a assinatura. Cópia do IEB sem assinatura.


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