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Novo em Folha 46ª turma
10/12/2008

Na história por acaso

DA EDITORIA DE TREINAMENTO

A EDITORA DA FOLHINHA

Eduardo Anizelli/Folha Imagem
Lenita Miranda de Figueiredo, que chorou ao saber do AI-5
A jornalista Lenita Miranda de Figueiredo, que diz ter chorado ao saber do AI-5

Lenita Miranda de Figueiredo foi editora dos suplementos Folhinha e Folha Feminina entre 63 e 73. No dia seguinte ao do anúncio do AI-5, ela o filho, Marcelo, hoje com 49 anos, foram à sessão de autógrafos de um de seus livros, 'Deus Aposentado'

"O jornalismo era minha maneira de lutar contra a repressão. Na noite em que soube do AI-5, chorei. Dois anos mais tarde, me tornei uma das vítimas do ato. Em 20 de dezembro de 69, dez homens com metralhadoras me arrancaram de casa. Chegaram a apontar as armas na cabeça de meu filho, que estava dormindo. Na cela 3 do Dops, fui torturada, espancada, levei choques elétricos. Entrei com 57 kg e, três meses depois, sai com 32 kg. Mas a pior parte foi ter que engolir páginas de uma edição da Folhinha com a capa de comemoração a Tiradentes porque a chamada era 'Liberdade, liberdade, abre as asas sobre nós', um trecho do Hino da Proclamação da República usado pelos militantes do MR-8 [Movimento Revolucionário 8 de dezembro]."

LENITA MIRANDA DE FIGUEIREDO, 86

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Bruno Magalhães/Agência Nitro
Michel Le Ven, que era padre, teve habeas corpus julgado cinco dias após o ato
Michel Le Ven, que era padre, teve habeas corpus julgado cinco dias após o ato

O PADRE LIBERTADO
Apesar de o AI-5 ter suspendido a garantia de habeas corpus nos casos de crimes políticos, o padre francês Michel Marie Le Ven e três colegas tiveram recurso julgado no Supremo Tribunal Militar cinco dias após a assinatura do ato, porque seu pedido havia sido encaminhado antes do dia 13/12. Le Ven era integrante da Juventude Operária Católica, foi preso em 28 de novembro de 1968, acusado de subversão, e solto em 5 de fevereiro de 1969.

"Naquela noite, fomos colocados numa Kombi e começamos a rodar pela cidade. O coronel falava 'vocês podem rezar agora, não tem mais Deus, agora não tem mais direito'. Pensava 'o que será que está acontecendo?' A gente lia o 'Última Hora' todo dia, sabia que podia acontecer alguma coisa, mas não entendia nada. Quando saímos da Kombi para voltar à prisão eram 6h30 da manhã. Todos os soldados do colégio militar estavam perfilados, e eu vi que designavam o grupo para ir controlar a TV Tupi de Belo Horizonte. Foi quando entendi que havia acontecido alguma coisa de diferente. Um coronel do colégio me perguntou: 'o que o senhor está fazendo aqui essa hora?' Eu falei: 'eu é que tô perguntando, o que está acontecendo agora?'. Depois voltamos para o xadrez, fiquei sabendo mais tarde do AI-5. "

MICHEL MARIE LE VEN, 77, professor de ciência política da UFMG.

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O CRAQUE DA SELEÇÃO
O então atacante Tostão fazia parte do time brasileiro que enfrentou a Alemanha no dia seguinte ao anúncio do AI-5

"Não foi um jogo marcante de maneira nenhuma; o AI-5 é que foi marcante. Os jogadores com exceções só estavam pensando em jogar futebol. Mas eu era contra a ditadura e lembro que no dia 14, como foi o primeiro dia, não deu para perceber as conseqüências daquilo. A partir de 69 é que teve mudanças. Na Copa de 70, houve a formação de uma comissão técnica com muitas pessoas ligados ao Exército.

Uma coisa estranha foi a contratação do João Saldanha como técnico, porque ele era um comunista, uma pessoa contra a ditadura. Isso mostrava que o futebol era um pouco alheio ao que estava acontecendo. Mas aí o João Saldanha foi substituído pelo Zagallo dois ou três meses antes da Copa. Até hoje a saída ainda não foi suficientemente explicada. Mas é claro que o governo não via com bons olhos a presença de um comunista na seleção. Houve até o episódio que o Médici disse que queria de ver o Dario na seleção e o Saldanha respondeu que tomasse conta do governo."

EDUARDO GONÇALVES DE ANDRADE, TOSTÃO, 61, ex-jogador, comentarista esportivo

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OS AMIGOS ARQUITETOS

Eduardo Anizelli/Folha Imagem
Os arquitetos Percival Brosig e Otávio Saito, que integram comitê que discute a ditadura
Os arquitetos Percival Brosig e Otávio Saito, que integram comitê que discute a ditadura

Percival Brosig e Otávio Saito, no primeiro dia do AI-5, apresentavam o projeto de um brinquedo que desenvolveram para o curso de arquitetura da USP. Hoje fazem parte de um comitê que se reúne para discutir o período da ditadura no Centro Maria Antônia, em São Paulo.

"O AI-5 cassou três professores que eram muito queridos, Vilanova Artigas, o Jon Maitrejean e o Paulo Mendes da Rocha. Nós sofremos muito. Esse foi o legado do AI-5 para a nossa faculdade. A gente tomava cuidado: só conversava sobre nossas preocupações, nossos ideais, em fóruns conhecidos. Antes, o regime não era tão fechado. O Dops dava uma dura e mandava embora. Não tinha a menor conseqüência. Depois do AI-5 a barra pesou mesmo. Saiu da linha, era preso, torturado. Ou você ficava quieto ou caía para uma clandestinidade."

PERCIVAL BROSIG, 65, é arquiteto

"Foi uma coisa meio assustadora. A gente tava que meio esperando. Tinha uns rumores. Já era uma coisa meio dura, a polícia já era dura. Os professores afastados depois do AI-5 eram os mais importantes da faculdade. Foi uma frustração. A gente nunca mais se separou [se referindo ao colega Percival Brosig]. Nossa turma é uma turma muito unida."

OTÁVIO SAITO, 63, é designer

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CARTAS À REDAÇÃO
José Thompson de Freitas Alencar, consultou, teve publicada carta em que se queixava do cheiro de um córrego próximo à sua casa (atualmente chamado de córrego da Invernada). Tal problema só foi resolvido 38 anos depois

"Desde essa época (1968), mudou muita coisa. Eu envelheci. Sempre fui contra a ditadura, mas a situação piorou depois dela. Hoje, vivo de INPS, não tenho dinheiro para pagar um plano de saúde. Quanto à queixa que fiz na carta [do mau-cheiro de um córrego próximo à sua casa], quem resolveu o problema foi o Kassab, há dois anos. Ele finalmente canalizou aquele lixo."

JOSÉ THOMPSON DE FREITAS ALENCAR, 80, aposentado,

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O IRMÃO DO NOIVO
Victor Freire de Carvalho foi padrinho do casamento de Heitor Freire de Carvalho Neto e Sônia Freire de Carvalho. A boda foi noticiada com foto na coluna social do dia 14 de dezembro de 1968.

"Eu reagi muito bem ao AI-5. Fui a favor da ditadura militar, que é o único jeito de colocar este país em ordem. Antes de ter uma democracia, é preciso ter bofetadas. O casamento foi um gasto desnecessário, só para jogar dinheiro fora. Não dei presente para os noivos, porque dar presentes é contra a minha religião. O casamento não deu certo, lógico. Já viu algum casamento ser feliz?"

VICTOR FREIRE DE CARVALHO, 85, engenheiro aposentado

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Carlos Ivan - 15.fev.2007/Agência O globo
Cristina Beltrão, filha de Hélio Beltrão
Cristina Beltrão, filha de Hélio Beltrão

A FILHA DO MINISTRO
Cristiana Beltrão nasceu em 5 de dezembro de 1968. Filha do então ministro do Planejamento Hélio Beltrão, que participou da reunião que aprovou o AI-5, teve seu nascimento noticiado na coluna social do dia 14 de dezembro de 1968.

"O AI-5 influenciou obviamente ao longo dos anos, mas não na minha infância. À medida que eu tive maturidade para entender a dimensão do evento, os meus pais me colocaram a par do que foi todo o ano de 1968 até a instituição do ato. Nunca houve associação direta, por parte deles, à data do meu nascimento. Acho que até hoje todos nós que nascemos naquele período ainda estamos entendendo todas as grandes revoluções que ocorreram no Brasil e no Mundo."

CRISTIANA BELTRÃO, 40, empresária

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Carol Guedes/Folha Imagem
O advogado Roberto von Haydn, que foi ameaçadopelo "esquadrão da morte"
O advogado Roberto von Haydn, que foi ameaçadopelo "esquadrão da morte"

UM ADVOGADO CONTRA O "ESQUADRÃO DA MORTE"
Roberto Von Haydin. 77, advogado de Roberto Teixeira, ameaçado à época pelo "esquadrão da morte"

"Eu fui afetado pelo AI-5 tanto quanto qualquer outro cidadão brasileiro. Na época em que ele entrou em vigor, eu estava num caso contra o 'esquadrão da morte' de então, comandado por dois delegados. Meu cliente, o Roberto Teixeira, conhecido como 'Robertão', tinha uma lista com o nome dos dez componentes desse esquadrão. Deixei o caso depois de mais algumas representações, antes do julgamento. Desculpe não dar detalhes, atualmente sofro de labirintite, o que prejudica muito a minha memória."

ROBERTO VON HAYDIN, 77, é advogado

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"OS LIBERTINOS"
Um dos filmes anunciados no jornal naquele dia, "As Libertinas", lançado em 6/12/68, foi censurado depois da promulgação do AI-5

"A notícia do AI-5 foi um impacto em toda a minha geração. Não deixa de ser irônico que o filme 'As Libertinas' tenha sido lançado exatamente por esta data [6 de dezembro de 1968]. De certa forma, mesmo não sendo um filme importante, tentava quebrar uma série de preconceitos estéticos e morais vigentes na época, como fazia o Tropicalismo, na música, e o Teatro Oficina, na dramaturgia. Era uma geração que estava trocando a subversão pela trangressão. O filme já tinha este viés, de ser mal-comportado, antiestético e profundamente debochado. Tinha a preocupação de detectar o comportamento da classe média, moralista e repressivo, especialmente a que ia ao litoral paulista.O sexo era muito enxergado quase como uma manifestação terrorista.

Havia umas provocações no filme que a censura cortou, como na hora em que o personagem virava e falava um jargão norte-americano para a câmara: "A América precisa de você".

Não lembro como soube do AI-5, mas tenho uma imagem de estar viajando para o Rio de Janeiro e de ter visto carros virados, carro da polícia pegando fogo e uma manifestação na avenida Tiradentes."

CARLOS REICHENBACH, 63, diretor do filme "As Libertinas"

"Quando soube do AI-5, pensei que o mundo iria acabar. Eu estava na Boca do Lixo, onde as pessoas de cinema, principalmente cinema underground, marginal, frequentavam. Ouvimos que tinha um tal de AI-5, um negócio que ninguém podia fazer mais nada."

JOÃO CALLEGARO, 63, diretor de "As libertinas"

Bruno Magalhães/Agência Nitro
Neusa Rocha, atriz de "As Libertinas"
Neusa Rocha, atriz de "As Libertinas"

"Recebi a notícia do AI-5, como todo brasileiro, assustadíssima e com o coração na mão. Aquela preocupação: "O que vai acontecer?" Vivíamos numa tensão constante _tive que parar com um espetáculo que fazia, por causa do AI-5, e muitas das minhas peças foram probidas.

No dia seguinte ao AI-5, uma peça de teatro nossa foi censurada: "Oh, oh, oh, Minas Gerais!", de J. D'Angelo e Jonas Bloch. Estávamos fazendo desde 1967, apresentando em Brasília, Minas Gerais, Rio de Janeiro e São Paulo. Ela fez muito sucesso e era muito bonita. Misturava trechos históricos de Minas Gerais e, disfarçadamente, políticos. Compilamos o que tinha acontecido em 1964, o que estava acontecendo na Guerra do Vietnã e lembrava a Inconfidência em várias histórias curtinhas.

Em Brasília, tínhamos que cantar "Peixe-vivo", para lembrar Juscelino Kubitschek.

Mas [os censores] proibiram de cantar. Na hora, ficamos de boca calada, e a platéia toda cantou, foi lindo!"

NEUSA ROCHA, 74, atriz de 'As libertinas'

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O FILHO DO REI
Filho do cantor Roberto Carlos nasceu no primeiro dia do ato. Uma foto sua no colo do cantor e de, Cleonice, sua mulher na época, foi publicada na capa da Folha dias depois

"Eu nasci exatamente depois de uma sexta-feira 13. Meu pai é muito supersticioso, e diziam na época que ele devia estar fazendo de tudo para eu não nascer numa sexta-feira 13. Mas esse também é dia de Santa Luzia, padroeira dos olhos, e eu nasci com glaucoma congênito. Quinze dias depois, fui operado. Na época, meu pai fez uma promessa: todo 13 de dezembro ele se resguarda. Vai só à igreja e não faz mais nada, nem tem nenhum tipo de diversão. Ele não atende nem telefone. A promessa é mantida até hoje, porque na época eu voltei a enxergar."

ROBERTO CARLOS BRAGA 2º, 40, publicitário

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