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19/02/2011 - 03h31

Ruy Castro: O dia em que Dennis Hopper me recomendou moderação

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RUY CASTRO
COLUNISTA DA FOLHA

Parece ter acontecido numa remota era glacial. Ao fim do expediente, os jornalistas brasileiros ainda faziam um estágio de algumas horas nos bares, para liberar o vapor, antes de voltar para casa.

Meu caso com a Folha: 90 colunistas comentam ligação com o jornal
Time de colunistas incluiu Lobato, Oswald e Francis

Como não eram chegados a Grapette ou Ovomaltine, isso contribuía para a reputação da categoria de, às vezes, beber além da conta.

Um dos pontos tardios dos repórteres da Folha era o bar do hotel Jandaia, na alameda Barão de Limeira. Tinha a vantagem de ficar a 100 m do jornal, o que permitia começar os trabalhos assim que se saía da Redação, e a desvantagem de se estar perigosamente à mão em caso de emergência.

Rafael Andrade-10.ago.2009/Folhapress
O escritor e colunista da Folha Ruy Castro
O escritor e colunista da Folha Ruy Castro

Foi o que aconteceu naquela noite de 1984 --que, ao contrário do habitual, começara cedo, talvez antes da sete, e se arrastava para bem depois das dez, sem descanso para os braços que erguiam os copos.

De repente, em meio ao alarido, ouvi um sussurro ao meu ouvido. Era um contínuo da Folha, comunicando-me que eu deveria ir até lá --na verdade, ao auditório, no 9º andar-- para atender a uma emergência.

Dennis Hopper, o astro de "Sem Destino" (1968), estava em São Paulo para o lançamento de seu novo filme, "O Selvagem da Motocicleta", dirigido por Francis Ford Coppola. Uma das sessões seria aquela noite, no auditório do jornal. O filme terminara, e o repórter encarregado de entrevistar Hopper faltara ou coisa assim. Alguém da Ilustrada sugeriu que eu fosse pescado no Jandaia para conversar com o homem.

Bem, ordens são ordens. Desci as escadas do Jandaia, venci os 100 m de calçada e tomei o elevador para o 9º andar. Lá chegando, logo vi Hopper --uma lenda da extravagância hollywoodiana, o homem que entrava e saía de todas, e só não se sabia como continuava vivo. Na verdade, fresco, rosado e saudável, estava numa fase em que dizia ter parado com tudo (e que, pelo visto, iria prolongar-se até sua morte, em 2010).

Apresentei-me. Hopper me olhou de cima a baixo com ar maroto. Falou alguma coisa e, pelo inusitado --não da frase, mas de quem a dizia--, só pudemos explodir numa gargalhada.

"Gee, man, easyà", ele disse. "Xi, cara, modere-se..."

Se o velho jornalismo desse prêmios a quem arrancasse algo inesperado de um entrevistado, seria difícil bater o repórter que foi aconselhado por Dennis Hopper --logo quem!-- a moderar-se.

 

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