Crianças recorrem a encontros online para rever os amigos

É fundamental que encontrem modo de socializar no isolamento, diz psicóloga

São Paulo

Durante a quarentena, Rafael Guimarães vem fazendo suas reuniões pelo celular ou computador. No geral, ao menos 14 pessoas participam dos encontros virtuais. Para não perder a hora do compromisso, ele fica de olho no relógio, um modelo digital que pegou da mãe e não devolveu nunca mais.

Rafael tem oito anos. As videoconferências foram a maneira que ele e os amigos encontraram para matar as saudades devido ao isolamento pela pandemia de coronavírus —de tanta falta que sente dos amigos, o menino mudou de humor e teve até crises de choro.

Rafael está com fones de ouvido na frente do computador vendo seus amigos em uma videoconferência
Rafael Blaskievicz Guimarães, 8 anos - Arquivo pessoal

“Ele tem acordado mais cedo, o que eu acho ruim porque é mais tempo para não fazer nada. Diz que está entediado e que não suporta mais ficar em casa. E olha que está no lucro, pois tem quintal, espaço para correr e brincar”, conta Danielle Blaskievicz, 44.

No começo da quarentena, Rafael e o irmão Augusto, de cinco anos, ganharam da mãe uma tabela com horários e atividades sugeridas, mas nem sempre tinham vontade de seguir o esquema.

“Acho que não adianta bancar a mãe chata e exigente numa situação dessas, pois só vai deixá-los ainda mais estressados”, afirma.

Foi pelo próprio trabalho que Danielle viu as coisas mudarem. Depois de uma semana no computador, usando a plataforma Zoom em casa, ela percebeu o interesse dos meninos naquela maneira de se comunicar e sugeriu às mães dos amigos da escola que promovessem encontros entre as crianças.

“Eles pareciam passarinhos na gaiola que descobrem que há um mundo lá fora”, lembra. Rafael chamou as videoconferências de “reuniões”, feito no mundo dos adultos. Nessas ocasiões, eles mostram os brinquedos para os amigos, falam das lições de casa e até discutem de vez em quando. “Ou seja, as mesmas tretas que eles têm no dia a dia real. Brigam e depois se acertam”.

A psicóloga Marina Bragante, 41, explica que é fundamental que as crianças encontrem um modo de socializar no isolamento. Para ela, é por meio da relação com outras pessoas que o ser humano aprende valores como as regras da sociedade, além de ajudar no processo de se reconhecer e entender sentimentos e gostos.

“É pela a socialização que a gente vai aprendendo a viver. Em um grupo, temos diferentes sentimentos e diferentes impactos nas ações de cada uma das pessoas com quem convivemos. Isso vai moldando a forma com que aprendemos a nos relacionar, com que queremos nos impor e nos mostrar para o mundo”.

Os impactos do isolamento social na personalidade das crianças ainda vão ser descobertos, mas a psicóloga antecipa que é provável que haja mudanças no comportamento delas. “Imagino que vamos ter, por um período, crianças um pouco mais distantes”.

Entre os principais desafios, está a necessidade de aprender a lidar com a sensação de estar sozinho —o que não é necessariamente ruim.

“Além da socialização, ficar sozinho, consigo e com seus pensamentos, também é importante. Aprender a se bastar pode ser interessante do ponto de vista do desenvolvimento da sociedade”, afirma a psicóloga.

“É um desafio muito grande. As crianças pequenas têm a sabedoria de gostar de colo, contato olho no olho e gostam de perceber as pessoas para além do que elas falam, pelo jeito como respiram, se mexem e fazem pausas enquanto pensam ou mexem as mãos”, explica a contadora de histórias Kiara Terra.

Kiara está de blusa azul no centro da cidade, com uma faixa vermelha nos ombros, em uma praça urbana
Atriz, contadora de histórias e escritora Kiara Terra - Divulgação

“A presença é uma coisa muito difícil de trazer de volta quando faz tempo que a gente não vê alguém. Eu só conheço um jeito, e ele se chama memória. Os amigos estão dentro dos dias que a gente viveu juntos”, diz.

Kiara acredita que, se já não dá para dormir na casa do melhor amigo, dividir o chiclete ou sentar do ladinho na escola, as crianças devem lançar mão “de uma coisa que nunca vai faltar e que não passa coronavírus”.

Ela se refere à “palavra. É por isso que a gente aprende a falar, e depois a desenhar, e depois a escrever. Porque, tirando um abraço, não há nada mais bonito e poderoso do que a gente dizer que se importa com alguém”.

Gabi Arduz, oito anos, a princípio tinha gostado da ideia da quarentena, mas depois passou a detestar não ver mais ninguém. “Achava que ia ficar de férias, mas, não, ia continuar tendo as lições. E eu sinto muita falta dos meus amigos e das minhas professoras”, conta.

Gabriela está sorrindo para a câmera do celular e a imagem de Iara também sorrindo está no topo da tela
Gabriela Arduz, 8, e Iara Menezes, 8( destaque), fazem videoconferência para matar saudades durante isolamento - Arquivo pessoal

A mãe Daniela Saraiva, 37, conta que já são 22 dias dentro de casa. Com isso, Gabi deixou de ver não só os colegas do colégio, como também a vizinha e melhor amiga Mirela. “Ela tem se queixado de saudade, e principalmente de não dormir na casa dos avós. Fazemos videochamada com eles diariamente, e com os amigos sempre que dá”.

Tanto Gabi quanto Rafael já fazem planos para quando a quarentena acabar. Enquanto ela sonha com os beijos e abraços que vai dar nos amigos, o garoto já agendou um compromisso.

“A gente vai lá naquele restaurante e vai brincar lá. Só que, dessa vez, não vai ser só com três amigos, vai ser com toda a turma. Só falta combinar com os pais”, diz Rafael.

Dicas da contadora de histórias Kiara Terra para a quarentena

  1. Faça um diário em vídeo e mande para a sua avó ou avô

  2. Combine com seus primos um horário do dia para pensarem uns nos outros

  3. Faça festivais de caretas virtuais com seus amigos

  4. Escreva uma linha do tempo e marque nela seus amigos da vida toda

  5. Grave histórias pelo WhatsApp pra mandar para quem você ama

  6. Pergunte à sua mãe e ao seu pai quem são todas aquelas pessoas da foto do dia do seu nascimento

  7. Relembre e anote as datas de aniversário de todos os amigos, primos e vizinhos

  8. Desenhe ou escreva cartas de amor

  9. Ligue e cante para a sua amiga a música predileta dela. Peça para ela cantar junto

  10. Deixe um brinquedo na mochila da escola para dar de presente para seu amigo no primeiro novo dia de aula​

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