Turma da Goiaba mostra crianças protagonistas livres para brincar

Personagens de série infantil no Youtube com mais de 300 milhões de visualizações ganharam versão em livro

Porto Alegre

Dois amigos fazem um trabalho da escola em que precisam desenhar eles mesmos. Um deles sai para pedir lápis de cor emprestado. O outro avisa: “Lembre-se de trazer o lápis ‘cor de pele’”. Na volta, o amigo traz três cores: amarelo, emprestado por um amigo japonês, um branco e um marrom, emprestados por uma criança branca e negra, respectivamente.

Ilustração em que criança imagina uma fada, sentada em uma árvore, ao lado de uma formiga gigante
Série "Turma da Goiaba", sucesso no Youtube, foi transformada em livro editado em Porto Alegre - LadoBeco/Divulgação

A cena integra o livro “Turma da Goiaba”, lançado no final de 2019 pela editora Avec, de Porto Alegre. O autor, Anderson LadoBeco, 40, levou para a literatura os personagens que antes ganharam fama em uma série dirigida por ele e publicada no Youtube.

Filmada em Santos, no litoral paulista, a séria “Turma da Goiaba” tem no elenco crianças que improvisam diálogos a partir das histórias criadas pelo diretor.

“Elas não decoram textos, inventam na hora. O roteiro é prévio, mas, a construção cênica é delas”, explica o diretor.

Duas amigas se encontram e descobrem que uma contou o segredo da outra. “Como elas reagiriam? Como se expressariam? A filmagem permite essa possibilidade de liberdade de expressão e espontaneidade”, diz.

A identificação do público infantil com os diálogos, que soam naturais, e com os personagens, que cometem erros e acertos, estão entre as razões do sucesso da produção. O seriado também procura mostrar crianças com autonomia e livres para brincar.

Duas meninas e dois meninos, de bermuda e chinelo e camisetas largas, abraçados olhando para a câmera
Cena da série "Turma da Goiaba", sucesso no Youtube - LadoBeco/Divulgação

Diariamente, a audiência média da série é de 450.000 visualizações. Em tempo de isolamento social por causa da pandemia do novo coronavírus, as visualizações diárias saltaram para 550.000. São 60 episódios, divididos em duas temporadas. A série estreou em março de 2018 e já superou 300 milhões de visualizações.

Porém, para evitar risco de contágio do elenco mirim, as gravações da “Turma da Goiaba” e de outras produções do LadoBeco estão suspensas. O diretor escolheu crianças de origem simples para o elenco, que estivessem familiarizadas com as brincadeiras na praia e pudessem levar essa vivência para os personagens.

A turma de cinco crianças — com nomes que homenageiam figuras históricas como Nelson Mandela, Luiz Carlos Prestes, Anita Garibaldi, Dandara e Olga Benário — precisa resolver problemas com autonomia.

Nas tramas, a compreensão das crianças sobre temas como a morte não é subestimada. O diretor mantém uma preocupação constante em evitar “maniqueísmos”. Uma das personagens mais queridas da audiência, Anita, por exemplo, “pisou na bola”: cometeu discriminação racial ao zombar do cabelo do amigo negro, Nelsinho.

“Nesse momento a reação do público foi com comentários como ‘não esperava isso de você!’. Essa construção é para que se entenda que ela não tinha só o lado legal, mas também o ‘lado sombra’. E que o fato de ter dado tantas mancadas, não significa que ela seja só isso”, explica.

Os erros da amiga resultaram em um episódio em que a turma se reúne para “discutir a relação”. “Juro por Deus que não imaginava que daria tanta audiência um episódio com as crianças sentadas conversando e mais nada. Mas as crianças piraram! Ao longo do episódio se constrói a ideia de que todo mundo erra e para acertar é preciso uma oportunidade para corrigir”, conta.

Duas meninas e um menino, no meio da mata, fazendo um piquenique
Cena da série "Turma da Goiaba", sucesso no Youtube - LadoBeco/Divulgação

Alvo de racismo, Nelsinho não participa da discussão. “Na verdade, ele estava muito doente e não pode gravar. Como a gente se vira com o que tem, ele participou pelo telefone”, relembra aos risos.

A produtora LadoBeco, que acabou virando sobrenome do diretor, distribui cerca de 5% do faturamento mensal para cada crianças. Veiculadas no Youtube, as gravações são custeadas com o valor repassado pela plataforma em troca da audiência para seus anúncios.

“Tem meses que chegam a ganhar a R$ 900. Isso é impactante na receita das famílias. A Sophia Rodrigues, que interpreta a Olga, se orgulha de pagar as contas de luz e telefone da casa, mesmo que aproveite também para ir ao shopping e passear”, diz.

O crescimento da audiência em meio à pandemia não aumentou o faturamento da produtora. Isso porque, embora tenha mais visualizações, os anunciantes do segmento de varejo estão investindo menos em propaganda no Youtube ou mantendo o patamar pré-pandemia. Com aumento do dólar, o mesmo valor em reais resulta em menos alcance.

Como o acesso ao seriado série é gratuito — sem exigência de assinatura de um serviço de streaming como Netflix ou GloboPlay por exemplo —, o diretor nota que a “Turma da Goiaba” é bem recebida na periferia.

“Percebo esse recorte econômico também pela maneira como o público se sente familiarizado com o universo das crianças da série, que brincam na rua e mexem no fogão, enquanto o normal seria no máximo usar o microondas”, conta.

“O pico de audiência, entre 18h e 22h, também permite pensar que é o horário em que a família preparara a janta e a criança pode usar o celular, até que chega a hora de dormir”, relata.

Realidade social e econômica também está presente na série. No primeiro episódio, que aborda a Páscoa, uma das meninas está triste porque não vai ganhar chocolate por causa da crise. A amiga explica que “a crise” é “uma mulher que não deixa os pais ter dinheiro”.

LIVRO

Turma da Goiaba
Avec Editora
48 páginas
R$ 24,90

SÉRIE

Turma da Goiaba
Gratuito
https://www.youtube.com/ladobeco

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