Menino de 8 anos escreve livro sobre rotina das crianças na pandemia

Mudança abrupta de agenda motivou o desabafo de Yalle Tárique

Franco Adailton
Salvador

Yalle Tárique, 8, tinha uma rotina comum a boa parte das crianças de sua idade: frequentava a escola, fazia caratê, aulas de música, brincava ao ar livre e via os amigos diariamente. De repente, ele se viu confinado, restrito a aparelhos eletrônicos, livros e a interagir pessoalmente só com a família.

A mudança abrupta de agenda, devido à pandemia do novo coronavírus, motivou o garoto a escrever o "Diário de uma Quarentena - o dia a dia de uma criança na pandemia", por ora publicado em posts na rede social Instagram, com mais de 1.300 seguidores, para desabafar os sentimentos.

O que, inicialmente, não passava de uma brincadeira de criança rendeu o convite para a concretização de um livro a ser lançado na Fliquinha, o espaço dedicado ao público infantil na Flica (Festa Literária Internacional de Cachoeira - Bahia), no ano que vem --a edição 2020 foi cancelada.

"Tudo começou com uma carta que escrevi para meu tio Caco, que estava internado na UTI por causa do coronavírus. Eu estava muito triste porque nos falávamos sempre, por telefone. Escrevi orando por ele, que ele ia melhorar e tudo ia passar logo", contou.

Postagem de Yalle Tárique, 8, com espécie de "diário das crianças" na pandemia - yalletarique no instagram

A partir daí, a mãe do garoto, a cantora Rebeca Tárique, passou a observar que o filho passava mais tempo escrevendo ao computador, quando Yalle avisou que pretendia escrever um livro sobre a angústia das crianças neste contexto de pandemia.

"Como está todo mundo afetado, de várias formas, com os nervos à flor da pele por causa da pandemia, muitos pais têm ficado impacientes", conta a mãe. "Quando nós lemos o que ele escreveu, foi que nos colocamos no lugar dele".

Desde a carta para o tio, o computador outrora usado para joguinhos online virou ferramenta de trabalho. No primeiro post, um dia após completar 8 anos, Yalle escreveu um apelo aos adultos.

"Nós, as crianças, estamos entediadas nesta quarentena. Então, ficamos agoniados, nervosos. Por isso, se não vemos os colegas, ficamos muito mal educados. Tenham paciência e evite (sic) se exceder com os pequenos, mesmo que eles te tirem do sério", escreveu o garoto.

O menino Yalle Tárique, 8, que escreve um "diário das crianças" na pandemia - yalletarique no Instagram

Yalle lembra que teve uma festinha online de aniversário, mas lamentou a ausência do contato com os convidados. "O que eu mais senti falta foi do abraço, do contato com a minha família e com os meus amigos", diz o menino, que cursa o segundo ano do ensino fundamental, em Salvador.

A mãe conta que, além do contato com ela e com o avô, com quem também mora, Yalle tem utilizado a internet para ver os amigos. "A única atividade que ele manteve foi das aulas online, mas não é a mesma coisa".

A repercussão das publicações foi o impulso para que Yalle passasse de uma rotina entediante para uma sequência de entrevistas à imprensa baiana. Além do assédio dos jornalistas, passou a receber livros infantis de presente.

Agora, a mãe está às voltas para fazer o livro do filho sair das telas para o papel.

"Eu não sei nem por onde começar. Não tenho nenhuma vivência com o mercado editorial, mas vou ter que me virar para fazer o projeto dele virar realidade. Ser mãe é isso, ?", diz Rebeca.

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