Artistas contam como foi o Natal mais diferente que já tiveram na vida

A data ensinou lições importantes para aquela época e para hoje, depois que eles já viraram adultos

São Paulo

O seu Natal vai ser diferente por causa da pandemia? Você não está sozinho. Leia aqui os depoimentos de dois escritores, dois músicos e uma atriz sobre o Natal mais diferente que eles já tiveram.

Pedro Bandeira, escritor:

“Eu devia ter entre oito e nove anos, e sempre sonhei com coisas muito caras, na época todas as coisas eram estrangeiras. Tinha um trenzinho elétrico, era uma graça. Eu também sonhava com uma bicicleta.

Minha mãe era viúva, ela se esforçava demais para me sustentar. Mas, naquele Natal, descobri um brinquedo que não era tão caro, e era fabricado no Brasil. Chamava Poliopticon. Dormi sonhando em ganhar aquilo.

E minha mãe, tadinha, sabia que eu gostava de ler, mas não sabia muito bem o que comprar, e comprou um livro.

Eu me lembro de acordar e ver no pé na minha cama um pacotinho com a história do Cristóvão Colombo.

Eu fiquei muito, muito triste, e chorei. Mas eu vi a expressão do rosto dela. Eu me lembro de duas decepções: a minha, de querer ser presenteado, e a dela, de presentar com o pouco que podia e ver que aquele amor não tinha sido bem recebido.

Esse Natal se tornou inesquecível para mim, porque nele ficou registrado para mim aquilo que acontece todos os dias na vida: o amor da nossa mãe. O amor da minha mãe, que já se foi, permanece dentro de mim.

O escritor está de braços abertos sorrindo para  acâmera. Atrás dele, uma folhagem muito verde
O escritor Pedro Bandeira em seu flat nos Jardins, em São Paulo - Karime Xavier/Folhapress

Ruth Rocha, escritora:

“Quero dar o conselho para as crianças não ficarem tristes por esse Natal ser mais simples. Porque vocês têm muitos Natais pela frente!

Se você é pequenininho, você deve ter pelo menos mais uns 90 Natais. A minha avó morreu em um dia de Natal, então a gente não comemorava.

Até que, um dia, minha mãe comprou uma árvore bem pequenininha, e fez uma ceia com guaraná para mim.

Foi uma coisa muito especial. E a gente deve pensar que é uma data para se lembrar das coisas boas."

A escritora está bem sorridente, sentada em uma cadeira e usando óculos enormes
A escritora Ruth Rocha em seu apartamento em São Paulo - Alf Ribeiro/Folhapress

Naya Sá, atriz da Trupe Pé de Histórias:

“Lembro que eu já era grande, e achava que Papai Noel não existia. Minha mãe me disse que eu estava errada, e que me contaria um segredo secretíssimo: nossa vizinha era o Papai Noel.

Ela, que estava acima de qualquer suspeita. Fomos fazer uma espionagem. A nossa vizinha estava sentada no sofá, e nós, olhando pela janela.

Ela não se parecia nada com o bom velhinho, mas eu acreditei tão verdadeiramente, que ela virou o Papai Noel para mim.

Tinha também o Amigo Secreto Ladrão, que eu adorava. Os presentes eram simples, tinha até tupperware!
E era a parte mais animada dos Natais da minha casa.

Já ganhei um guarda-chuva. Meus filhos, um pirulito. E as gargalhadas são os verdadeiros presentes.

Vestida com saia cheia de badados e uma meia vermelha e outra azul, a artista sorri para a câmera
A atriz Naya Sá, da Trupe Pé de Histórias - Daniela Toviansky/Divlulgação

Paulo Tatit, músico do Palavra Cantada:

“Cada vez que eu vejo o desprezo que as crianças de hoje têm por uma bola de futebol eu fico chocado!

Claro que as crianças adoram jogar bola, não é isso. Mas elas as esquecem na casa do avô, na casa do amigo, na escola. Elas têm várias bolas!

Nos anos 60, uma bola era um objeto sagrado. Quantas crianças tinham bola lá na rua? Nenhuma! A minha única bola eu ganhei num Natal. Que emoção acordar cedinho, ir para a sala e ver uma bola embrulhada.

Essa bola deve ter durado uns dez anos. Eu sonhava com os gols que iria fazer no jogo seguinte.

Quando caminhava para os 11 anos, chegou o Natal. Que emoção acordar cedinho, ir para sala e ver... um violão!

Os “Beatles” tinham lançado o disco “Help” e eu nunca mais pensei em bola na vida.”

Mulher ruiva de vestido vermelho e homem de óculos e roupa azul sorriem
Paulo Tatit e Sandra Peres, do grupo Palavra Cantada - Daryan Dornelles/Divulgação

Sandra Peres, musicista do Palavra Cantada:

“Meu pai morreu subitamente quando eu tinha 20 anos. Tivemos que lidar com o primeiro Natal sem a presença dele, e foi muito difícil!]

Não estávamos preparados e nunca imaginávamos que isso podia acontecer. Fizemos um encontro amoroso, sem comemoração, mas vivendo o silêncio, a presença dele, e honrando a passagem dele em nossas vidas.

A passagem do Natal em momentos difíceis, muitas vezes sem um ente familiar muito querido, é desafiadora, complexa.

A coisa mais bacana que se pode fazer é se reunir em um pequeno grupo desse coração familiar e viver o amor, a comunhão, o estar junto, estar em silêncio.

A atitude de acolhimento também honra todos os ensinamentos dessa pessoa que partiu.”

DEIXA QUE EU LEIO SOZINHO

Ofereça estes textos para uma criança praticar a leitura autônoma

Tópicos relacionados

Comentários

Os comentários não representam a opinião do jornal; a responsabilidade é do autor da mensagem.