Descrição de chapéu Todo mundo lê junto

Hilda Hilst fez livro 'Eu Sou a Monstra' para a 'crionça' Daniel

Criado há 30 anos, único poema infantil da escritora foi dedicado ao filho de seus melhores amigos

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São Paulo

Daniel nunca se incomodou em ser a única criança no meio de vários adultos, nem mesmo quando eles se reuniam à mesa, à noite, para conversar, comer e beber, como muitos adultos fazem. Nestas situações, Daniel ficava junto, desenhando, ou ia até o jardim brincar de enterrar seus bonequinhos.

Agora que ele também virou um adulto, Daniel Fuentes, que tem 37 anos, conta que não só não achava ruim aquela época da infância, quanto até gostava que
não houvesse “concorrência” —é que, sendo o único pequeno entre tanta gente grande, ele podia ser amado e mimado pela tia Hilda Hilst.

Desenhos de Ixchel Estrada para o livro "Eu Sou a Monstra", de Hilda Hilst - Reprodução

Hilda foi uma grande escritora e poeta. Publicou dezenas de livros, ganhou muitos prêmios, e é admirada até hoje, quase 20 anos depois de sua morte. Ela morava na Casa do Sol, uma grande chácara em Campinas, no interior de São Paulo, cheia de cachorros.

Como os pais de Daniel eram os melhores amigos de Hilda, o menino cresceu como se fosse seu sobrinho. Todas as datas importantes, tipo Natal, Ano Novo e férias, eram sempre passadas na Casa do Sol. “Todo esse universo de adultos era, na prática, uma família”, lembra Daniel.

E foi para ele que a tia Hilda Hilst escreveu seu único livro infantil, chamado “Eu Sou a Monstra”, lançado agora pela editora Companhia das Letrinhas. “A Monstra era a Hilda, mas ela era uma monstra muita simpática”, explica.

Escrito em forma de poema, o livro conta a história da personagem que tem “muitas caras”, “mil capas”, e que pode ser tudo que a imaginação do leitor quiser. “Ela fez de presente para mim quando eu tinha
uns seis anos”, conta Daniel.

Depois que ele cresceu, o poema se perdeu entre as coisas armazenadas na Casa do Sol de Hilda. Dez anos depois da sua morte, todo esse arquivo —que, no caso de artistas, é chamado de acervo— começou a ser trabalhado e recuperado, e o poema ressurgiu.

“Na hora que bati o olho nele eu lembrei de tudo. Aquela folha toda desenhadinha, uma coisa muito carinhosa, parecia que a Hilda tinha voltado”, diz. “Eu Sou a Monstra” traz o poema escrito pela autora, acompanhado de ilustrações de Ixchel Estrada.

“Eu sou assim? A bruxa do mato. Montada num cavaco? (atenção: é cavaco e não cavalo)”, escreveu Hilda, na abertura de seu poema infantil.

Daniel diz que sempre achou Hilda muito divertida e engraçada. “Eu me lembro muito dela de bom humor. O som das risadas é o som das memórias da Casa do Sol. Eu adorava essa rotina, acordar cedo, preparar a comida dos cachorros. Era um universo muito legal para uma criança, ainda que não fosse um universo infantil.”

A escritora Hilda Hilst em foto de Renata Falzoni na revista Quatro Cinco Um
A escritora Hilda Hilst e Daniel Fuentes brincavam de guerra de meleca - Renata Falzoni/Divulgação

Hilda brincava que crianças eram, na verdade, “crionças”, em uma mistura de humanos com onças. Dizia que não as entendia, e que achava que elas também não conseguiam entendê-la.

Daniel fala que, mesmo assim, ele e a tia tinham uma relação “de igual pra igual”. “Ela tinha lados muito infantis. Gostava de brincar de guerra de meleca, era algo que a gente sempre fazia”, conta, rindo.

Além do privilégio de ter “Eu Sou a Monstra” escrito e dedicado só para ele, Daniel também tinha a sorte de receber outros carinhos de Hilda. “Ninguém me deu tantos presentes ao longo da vida.”

“Eu tive várias fases. A fase do dinossauro, dos bonecos. E era só eu falar que estava gostando daquilo que ela me dava um monte de livro sobre o assunto, e a gente ficava conversando a respeito. Esse amor pelo conhecimento é a Hilda na minha vida.”

Hilda nasceu em Jaú, em 1930. Vários de seus livros foram traduzidos para outros idiomas, para que ela pudesse ser lida em outros países além do Brasil. Nas obras, ela falava de temas que alguns adultos acham polêmicos, mas uma vez disse que, na verdade, sempre quis retratar a relação dos homens com Deus, que ela considerava difícil.

Um dos melhores amigos dela era o artista plástico espanhol Jose Luis Mora Fuentes. Ele desenhou algumas capas de livros de Hilda, e passava muito tempo com a amiga. Depois que ela morreu, ele fundou o Instituto Hilda Hilst. Jose Luise a artista plástica Olga Bilenky, grande amiga de Hilda, são os pais de Daniel.

“Foi sempre tudo muito bonito junto com a Hilda”, diz o sobrinho da grande escritora, e hoje presidente do Instituto. “E, dentro desse nosso universo, nasceu este poema. É lindo poder dividi-lo agora com o mundo.”


Eu Sou a Monstra

Hilda Hilst e Ixchel Estrada, editora Companhia das Letrinhas, 36 páginas (R$ 54,90)

TODO MUNDO LÊ JUNTO

Texto com este selo é indicado para ser lido por responsáveis e educadores com a criança

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