Médico congolês repara corpo e esperança de vítimas de estupro

Denis Mukwege reabilitou 1.200 mulheres com projeto que transforma dor em poder; Nobel da Paz é um dos conferencistas do Fronteiras do Pensamento 2019

Fernanda Mena
São Paulo

Ainda que vaginas fizessem parte de seu trabalho cotidiano, dez anos atrás o ginecologista congolês Denis Mukwege era incapaz de pronunciar, em alto e bom som, o nome do canal que se estende do colo do útero até a vulva. A timidez, a educação religiosa e o próprio tabu em torno da palavra --e, portanto, do corpo feminino-- o impediam. 

"Denis sempre foi muito tímido e conservador. Tive o privilégio de acompanhar de perto sua evolução", conta Christine Schuler Deschryver, 55, amiga de Mukwege, ex-professora de suas filhas e vice-presidente da fundação criada por ele para tratar e acolher vítimas de violência sexual. "Hoje, ele é um feminista, obcecado em libertar as mulheres dessas atrocidades", diz.

Aos 64 anos, Mukwege contabiliza mais de 50 mil cirurgias realizadas no hospital Panzi, que ele criou e dirige desde 1999 em Bukavu, no leste da República Democrática do Congo (RDC)

Na maioria das operações, seu desafio é reconstruir vagina, reto e ânus dilacerados por estupros brutais cometidos de forma pública e coletiva, e seguidos da introdução de objetos cortantes ou em chamas nas vítimas.

O médico congolês Denis Mukwege no Parlamento Europeu, em novembro de 2014
O médico congolês Denis Mukwege no Parlamento Europeu, em novembro de 2014 - Frederick Florin/AFP

A prática perversa se tornou sistemática no Congo desde 1998, quando teve início a guerra civil que já deixou mais de 5 milhões de mortos e quase 4 milhões de refugiados.

"Nas zonas de conflito, as batalhas se passam nos corpos das mulheres", declarou em 2013 a uma plateia europeia. "A violência macabra não conhece limites. Eu assisti a coisas que mesmo os cirurgiões não conseguem se acostumar a ver."

Segundo o médico, essa violência sexual extrema, ao atacar e humilhar a figura central da família tradicional congolesa, desagrega esse núcleo, destruindo as comunidades que em torno dele se organizam. Para ele, é uma forma de destruir o tecido social do Congo. 

"O estupro se tornou uma arma de destruição em massa e uma estratégia de guerra, porque é ao mesmo tempo barata e absolutamente devastadora", declarou ele no documentário "O Homem que Repara as Mulheres" (2016).

Suas práticas extrapolaram o campo médico rumo ao ativismo quando Mukwege passou a atender bebês e crianças violentados, que precisavam de cirurgias complexas para reconstrução dos sistemas urinário e excretor. 

"Percebi que essas atrocidades não seriam resolvidas no centro cirúrgico. Era preciso combater suas causas."

Ao denunciar os poderosos que se beneficiavam do terror e da violência, Mukwege se tornou ele mesmo um alvo. Em 2012, sofreu um atentado no qual seus cinco filhos foram feitos reféns e seu segurança particular foi morto. O médico e sua família, então, se exilaram na França. 

Pouco depois, no entanto, ao tomar conhecimento de que mulheres congolesas haviam criado um movimento para trazê-lo de volta ao hospital Panzi, Mukwege retornou a Bukavu, e passou a morar dentro do complexo hospitalar, agora protegido por forças de paz da ONU.

 

Em 2014, fundou um movimento feminista masculino, o V-Men, que reitera o compromisso dos homens com a igualdade de gênero.

Por seu empenho para acabar com a violência sexual como arma de guerra, recebeu o Prêmio Nobel da Paz em 2018. "Apenas a luta contra a impunidade pode cessar essa espiral de violência", discursou na cerimônia do prêmio.

A guerra civil no leste do Congo deriva do genocídio na vizinha Ruanda, em 1994, e envolve mais de uma centena de grupos milicianos armados, financiados pela exploração ilegal ou descontrolada do rico solo congolês, de onde são extraídos diamantes, ouro, cobalto e coltan, um mineral estratégico usado na produção de baterias para telefones celulares, por exemplo.

"A exploração mineral no Congo alimenta a guerra, a violência extrema e a pobreza abjeta", disse, na entrega do Nobel, antes de lançar uma provocação à ilustre plateia. "Não são apenas os perpetradores da violência os responsáveis por seus crimes, mas também aqueles que escolhem olhar para o outro lado."

Denis Mukwege nasceu em 1955 em Bukavu, território que então ainda era uma colônia da Bélgica.

Terceiro de nove filhos de um pastor pentecostal, estudou medicina no vizinho Burundi e se especializou em ginecologia e obstetrícia na França. 

Ao retornar ao Congo, dirigiu um hospital em Lemera, dizimado pela primeira guerra civil do país, em 1996, quando mais de 30 pacientes foram assassinados no leito hospitalar. "Mal sabia eu que aquele massacre era apenas o começo", disse ao receber o Nobel.

Mudou-se para Bukavu e fundou o hospital Panzi, que, nos primeiros anos da segunda guerra civil congolesa, recebia, em média, dez mulheres estupradas por dia. 

Christine, que havia ingressado no hospital Panzi depois que sua melhor amiga foi assassinada por uma milícia, mantém vivo na memória o caos daqueles primeiros anos de guerra. "Eu voltava para casa impregnada do perfume de carne podre que emanava das mulheres no hospital", conta. "Comecei a ficar maluca, culpada por ter uma vida confortável. Acabei me tornando anoréxica", revela. 

As mulheres vitimadas chegavam sozinhas ao hospital, seja porque tiveram seus familiares assassinados, seja porque passaram a ser vistas por eles como desonradas.

"Em cada mulher estuprada, eu vejo a minha própria mulher. Em cada mãe estuprada, eu vejo a minha própria mãe. Em cada criança estuprada, eu vejo as minhas filhas", discursou Mukwege num encontro sobre violência sexual nas Nações Unidas.

Foi essa profunda empatia e o desejo de ajudar suas pacientes para além da medicina que transformaram seu improvável encontro com a escritora e ativista norte-americana Eve Ensler, em 2006, num projeto de empoderamento das vítimas desses massacres. 

A autora da premiada peça "Monólogos da Vagina", que trata do corpo e da sexualidade femininos de maneira despudorada, visitou o hospital Panzi a convite de Mukwege, em 2007.

Ensler ouviu os relatos das mulheres sobreviventes sobre as atrocidades a que foram submetidas e se envolveu com a questão da violência sexual no Congo. 

A ela, as congolesas disseram que gostariam de ter um lugar onde "tivessem poder". E foi assim que surgiu o projeto City of Joy (cidade da alegria, em inglês), um centro de acolhida, gerido pelas próprias congolesas, voltado para a cura dos traumas e a formação de lideranças.

"A ideia é prover dois elementos a partir dos quais elas possam elaborar novos projetos de vida: amor e comunidade", explica Christine, que se tornou diretora do centro. 

 

Erguido em 2011 ao lado do hospital Panzi e mantido com recursos captados por Ensler, o local é uma espécie de oásis em Bukavu, onde as mulheres recebem assistência médica, social, econômica e jurídica.

"A City of Joy é o lugar onde as mulheres congolesas vão transformar sua dor em poder", disse Ensler na cerimônia de inauguração do espaço.

"Acho que, hoje, eu, Denis e a equipe da City of Joy somos as pessoas que mais falam a palavra vagina no mundo todo", brinca Christine.

Mais de 1.200 mulheres deixaram os portões da City of Joy prontas para reescreverem suas histórias em novas bases.

Ainda que o volume de vítimas de estupro que chegam ao hospital Panzi tenha diminuído muito nos últimos anos, Mukwege hoje se depara com a angústia de ter de operar pela segunda, terceira ou quarta vez uma mesma mulher que sofreu novo estupro.

"Quando ele me telefona e pergunta se estou sozinha na minha sala, eu já sei", conta Christine. "Ele vai entrar, fechar a porta e chorar", descreve. "E eu choro junto, de dor e de revolta."

Mukwege foi testemunha de casos críticos, em que mulheres chegaram ao hospital desenganadas para depois, recuperadas, voltarem a fazer planos para o futuro. Ele diz sempre se surpreender com a resiliência dessas sobreviventes. 

"Se essas mulheres, diante do horror, conseguiram forças para lutar por suas vidas, quem sou eu para desistir?".

Comentários

Os comentários não representam a opinião do jornal; a responsabilidade é do autor da mensagem.