Para filósofo conservador, meio ambiente é tema mais urgente da atualidade

Abordagem de ativistas da causa, no entanto, é equivocada, diz britânico Roger Scruton

Marco Almeida
São Paulo

Uma boa maneira de compreender o pensamento conservador de Roger Scruton é ler o que ele tem a dizer sobre o meio ambiente.

Não há tema mais urgente e central no debate público atual, diz. Ativistas ecológicos, contudo, estão equivocados na forma de abordá-lo.

“Eles se concentram no que não podemos controlar agora, a mudança climática, e ignoram o que podemos controlar, a poluição pelo plástico. Talvez possamos nos adaptar a um aumento na temperatura, mas não a um mundo em que tudo está contaminado pelo plástico”, afirma o filósofo, em entrevista à Folha

Cuidar do que está próximo, buscar melhorias no âmbito local, ter cautela com propostas que pareçam inexequíveis. Com poucas variações, essa é a receita que Scruton oferece para responder a questões como nacionalismo, desigualdade e multiculturalismo.

“O conservadorismo é uma atitude perante a vida. Baseia-se no apego a coisas herdadas e numa suspeita de mudança radical”, conta ao jornal.

Num dos livros básicos para entender suas ideias, “Como Ser um Conservador” (Record), Scruton resume: “O conservadorismo advém de um sentimento que toda pessoa madura compartilha com facilidade: a consciência de que as coisas admiráveis são facilmente destruídas, mas não são facilmente criadas”. Alguns exemplos: a paz, a liberdade, a lei, a vida familiar. 

“Em relação a tais coisas, o trabalho de destruição é rápido, fácil e recreativo; o labor da criação é lento, árduo e maçante”, acrescenta. Está aí, para ele, a desvantagem do conservadorismo no debate público: “Sua posição é verdadeira, mas enfadonha; a de seus oponentes é excitante, mas falsa”.

Scruton, contudo, não tem do que se queixar. Nos últimos anos as ideias conservadoras ganharam difusão em diversos países, inclusive naqueles de base institucional menos consolidada, como o Brasil.

Principal expoente vivo do conservadorismo, Scruton tornou-se também referência teórica da nova direita brasileira. Mais de uma dezena de seus livros ganharam edição no Brasil. A situação era bem diferente há 15 anos, quando era pouco conhecido mesmo no meio acadêmico brasileiro e menções a ele na imprensa quase se restringiam aos artigos de Olavo de Carvalho, o guru dos grupos nacionais: “Conheço, mas tenho vergonha de dizer que não o li. Vou fazê-lo”, diz.

A obra de Scruton é de temática vasta, abarca reflexões sobre estética, religião e história da filosofia. Mas a repercussão de seus textos políticos fixou sua imagem como “defensor do conservadorismo”.

Embora densos, seus livros passam longe do tédio. A sofisticação de suas ideias, a forma precisa de expressá-las e a verve provocadora garantem o prazer da leitura, talvez até a um comunista convicto.

Scruton celebra os indícios de uma onda conservadora pelo mundo, mas vê um longo trabalho pela frente para desfazer o que considera equívocos colados a essa corrente. 

Talvez o principal deles seja o discurso das esquerdas segundo o qual conservadores ignoram, quando não se opõem, a pautas sociais e identitárias.

“Conservadores não ignoram questões sociais. Só não acreditam que existam soluções socialistas para eles. A desigualdade não é aliviada pela retirada de bens dos ricos, mas pela oferta de oportunidades aos pobres”, responde.

“Quanto aos movimentos de identidade, são, em grande parte, tentativas de encontrar uma identidade social em oposição ao mundo circundante. Essa tentativa é parte normal da adolescência. Mas algumas pessoas também se recusam a crescer.”

Para a surpresa de seus opositores, o filósofo afirma que em certas situações o capitalismo precisa ser controlado. O acúmulo excessivo de poder econômico, explica, pode vir a ser uma ameaça inevitável aos interesses da população e à soberania do país.

A defesa dos Estados nacionais é outro ponto central na sua obra. Defensor do brexit, Scruton diz que a União Europeia ameaça a democracia no continente, uma vez que a classe política eleita em cada país não é mais responsável por seu povo. 

“O povo britânico votou para deixar a UE porque quer ser governado por pessoas que escolheu, e não por outros que lhes são impostos. Infelizmente, as pessoas que eles escolheram querem permanecer na UE, uma vez que isso as libera da responsabilidade de governar. Por isso, o Parlamento tentou atrasar ou reverter o processo”. A falta de autênticas lideranças conservadoras contribui para o impasse. 

Com relação ao governo de Jair Bolsonaro, reserva a prudência e o ceticismo que lhe são caros. “A situação no Brasil não parece tão boa para mim, e há claramente questões sobre o caráter do presidente. Na política, no entanto, você não pode esperar que o melhor tipo de pessoa chegue ao topo.”

E qual deveria ser a postura, de um governo conservador? “Faça o mínimo possível, mas corrija o que é necessário”.

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