Descrição de chapéu Coronavírus

Pandemia tanto acentua como cura patologias mentais, diz psicanalista

Para Elisabeth Roudinesco, medo se sobressai no turbilhão de emoções gerado pelo novo coronavírus

Lígia Mesquita Lucas Neves
São Paulo

O confinamento imposto pela pandemia do coronavírus tem sido um laboratório psicanalítico, no qual patologias foram acentuadas, mas também curadas, segundo a psicanalista e historiadora francesa Elisabeth Roudinesco. "Quando o mundo enlouquece, os loucos ficam menos loucos."

Para Roudinesco, quem tinha fobias ou condições ligadas à depressão enlouqueceu, obcecado em se proteger da doença. A constatação não vale, porém, para aqueles com patologias mentais mais profundas.

"Acho que muitas pessoas que têm doenças psíquicas graves se sentiram melhor. Em primeiro lugar, pela possibilidade de confinamento; em segundo, pelo espetáculo que lhes foi oferecido da inversão das normas", diz à Folha.

"Com o mundo obrigado a se 'internar', essas pessoas puderam se sentir mais livres", avalia Roudinesco, que já participou do ciclo de conferências Fronteiras do Pensamento, cujo tema de 2020 é "Reinvenção do humano".

A psicanalista e historiadora francesa Elisabeth Roudinesco, que já participou do ciclo Fronteiras do Pensamento, cujo tema de 2020 é "reinvenção do humano"
A psicanalista e historiadora francesa Elisabeth Roudinesco, que já participou do ciclo Fronteiras do Pensamento, cujo tema de 2020 é "reinvenção do humano"

Tal debate se torna ainda mais pertinente com a pandemia em curso, que já tirou a vida de mais de 100 mil pessoas no Brasil, e incitou uma ampla discussão paralela sobre seus efeitos psicológicos.

Em maio, a OMS (Organização Mundial da Saúde) alertou para uma crise global de saúde mental. "O isolamento, o medo, a incerteza, o caos econômico – todos eles causam ou podem causar sofrimento psicológico", declarou a diretora do departamento de saúde mental da entidade, Devora Kestel.

Roudinesco não acha que, no contexto pandêmico, o confinamento por si só esteja produzindo traumas profundos. "Em termos psíquicos, penso que os efeitos [do isolamento] são menos traumáticos do que aquilo que foi dito."

É certo, porém, que a explosão de incertezas em relação a tudo o que tínhamos como garantido colocou o medo no centro do novo turbilhão de emoções. Para Roudinesco, a ascensão deste sentimento é a principal consequência do vírus.

A pandemia, além de adoecer e matar, desfaz as seguranças e tira a sensação de controle da mão das pessoas. Sente-se medo porque os perigos são reais.

"O medo é constitutivo. Sem medo, sem ódio, sem nojo, a gente morre. São funções básicas de sobrevivência", afirma a psicanalista Maria Homem.

E tudo bem sentir medo, ainda que muitas pessoas tenham vergonha de admiti-lo e de falar sobre ele, porque, segundo Homem, o medo foi demonizado pelos nossos sistemas de sentidos, como se fosse um afeto proibido ou inferior.

"Coisa de menina medrosa. Afinal, homem não teme nem chora. Isso seria coisa de 'viado', como dizem alguns de nossos líderes. Como poder nos reapropriar de afetos que foram recalcados ao longo da história humana e, assim, reconstruir nossas formas de vida?", questiona.

Já o medo do outro, segundo a Roudinesco, existia antes da pandemia. “Ele se chama racismo, antissemitismo, discurso de ódio. O que eu acho mais perigoso no mundo em que vivemos são os retrocessos nacionalistas, os populismos. Em todo lugar, ganha força nas massas um desejo de fascismo, de governos autoritários. Esta é a crise do Ocidente. Suas democracias ficaram muito individualistas diante do fracasso do comunismo”, afirma.

“Não há engajamentos coletivos, cada um só se importa consigo mesmo.”

O medo passa a ser um problema quando causa sofrimento constante e impacta a vida da pessoas gerando muito estresse, desregulando o sono, a alimentação, a rotina. A ansiedade se torna então uma patologia e, frequentemente, provoca crises de pânico.

Em 2019, antes do coronavírus, dados da OMS mostraram que o Brasil sofre uma epidemia de ansiedade. Segundo a organização, o país tem o maior número de pessoas que convivem com o transtorno no mundo: 18,6 milhões (9,3% da população).

A pandemia fez os casos de depressão dobrarem e aumentou em 80% as ocorrências de estresse e ansiedade no Brasil nas primeiras semanas de quarentena obrigatória, segundo levantamento da Uerj (Universidade Estadual do Rio de Janeiro) publicado na versão online da Lancet, uma das principais publicações científicas do mundo.

A pesquisa analisou o comportamento dos brasileiros no isolamento entre 20 de março e 20 de abril, a partir de 1.460 entrevistas em 23 Estados.

No extremo oposto ao do transtorno de ansiedade, o medo pode conduzir a uma fuga da realidade, como aponta o médico Marcelo Demarzo, especialista em saúde mental e Mindfulness e professor da Escola Paulista de Medicina da Unifesp.

Nesse caso, finge-se que ele não está lá, e a rotina é mantida como se nada tivesse acontecido --tudo para não se entrar em contato com essa informação.

"Quase metade da população não sabe lidar bem com suas emoções. Replicamos padrões que aprendemos. É preciso ter a capacidade de discriminar as emoções, reconhecê-las, validá-las e então ter uma ação efetiva e realista para lidar com elas", diz ele. "Quando a gente reconhece as próprias emoções, desenvolvemos empatia pelos outros, conseguimos entender melhor a situação do outro."

Maria Homem observa que essas patologias se intensificarão na proporção em que os “espaços de simbolização” diminuírem. “Quanto menos se fala, se escuta, se digere, mais adoecemos e violentamos a nós mesmos e aos outros. Outras patologias virão, sobretudo aquelas de face narcísica, derivadas de nossas mais modernas maneiras de viver."

E neste modo de viver contemporâneo, a psicanalista não acredita que o uso ainda maior da tecnologia em todas as áreas ocupará o espaço do humano.

Não cabe à tecnologia, por exemplo, administrar a ansiedade e o medo do ser humano, apesar de existir um mercado imenso de aplicativos e sites para meditação e melhora da qualidade de vida. Muitos deles quais focados na prática do mindfulness, que ganhou muitos adeptos na última década.

O mindfulness prega a atenção plena, estimulando as pessoas a viverem o presente —algo que já é colocado em prática há milênios por budistas, por exemplo, e que também faz parte da filosofia estoica, com sua concepção de viver o presente para alcançar a felicidade.

Para Demarzo, a pandemia pode ser uma oportunidade para as pessoas aprenderem a lidar melhor com as emoções, com o medo e não focarem tanto no futuro.

"Sentir emoção é natural da vida, tem uma função evolutiva. O medo é uma informação. Nosso corpo recebe a informação de que algo está nos ameaçando, então podemos lidar de maneira mais consciente com esse sentimento, fazer escolhas mais realistas. Fugir das nossas emoções ou senti-las em excesso é que pode ser um problema."

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