São Paulo, sexta-feira, 19 de maio de 1995
Texto Anterior | Próximo Texto | Índice

Derek Walcott discute o multiculturalismo

DANIEL PIZA
DA REPORTAGEM LOCAL

Conferência: Derek Walcott
Evento: Banco Nacional de Idéias
Onde: Espaço Banco Nacional (r. Augusta, 1.475, tel. 011/288-6780)
Quando: hoje, às 20h
Ingressos: esgotados

O poeta caribenho Derek Walcott, 65, admira ``dead white males" -os artistas e intelectuais machos, brancos e mortos que alguns professores universitários americanos estão abolindo de seus currículos porque não passavam de machistas, racistas e caretas.
Quem for à sua conferência hoje, no Banco Nacional de Idéias, verá. De Homero a Philip Larkin, passando entre outros por Dante, Shakespeare, John Donne, W.B. Yeats, Joseph Conrad, James Joyce, Hemingway e Ezra Pound, o repertório literário de Walcott é extenso em estilos e épocas.
Mais: trata-se de um repertório organicamente assimilado, retrabalhado de modo particular por ele em sua poesia -o que o crítico americano Harold Bloom (também admirador intenso dos ``machos, brancos e mortos") diz ser exatamente o exercício poético.
Em entrevista coletiva anteontem em São Paulo, no hotel Caesar Park, Walcott disse: ``Tudo que respira tem história. O que o chamado Novo Mundo podia oferecer é uma poesia que não depende tanto da história". E citou como exemplo o chileno Pablo Neruda (1904-1973), o americano Walt Whitman (1819-1892) e o brasileiro João Cabral de Melo Neto, 75.
Mas, assim como os citados, Walcott -que nasceu na ilha de Santa Lucia, estudou na Inglaterra e é professor universitário em Boston (EUA)- é grande conhecedor e devedor da cultura européia.
Não é à toa que intitulou sua obra-prima, ``Omeros" (publicada em 1994 pela Companhia das Letras), com uma transcrição da pronúncia que o grego moderno dá ao nome do autor da ``Odisséia".
O texto de ``Omeros" recorre todos os escritores citados. Ouvem-se ecos dos cantos de Homero, Dante e Pound, convive-se com personagens como os de Shakespeare, Conrad e Hemingway, vêem-se imagens metafísicas como as de Donne, Joyce e Yeats.
``I had no nation now but the imagination" (Agora não tenho nação que não seja a imaginação), escreve Walcott. ``O criador deve transitar por várias culturas", disse o poeta anteontem.
É sobre essa sua experiência que ele fala hoje à noite no Banco Nacional de Idéias, que tem como tema geral este ano ``Multiculturalismo, Transculturalismo e Sincretismo Cultural".
Estas palavras assustam Walcott um pouco, mas ele reconhece que sua produção pode ser descrita como ``multicultural" ou ``sincrética". Além do repertório europeu e modernista, ``Omeros", naturalmente, é resultado da vivência e herança caribenha de Walcott.
Os pescadores de Santa Lucia, no livro, ganham existências homéricas até nos nomes: ``E Achille sentiu a vergonha e a dor da saudade de sua África", diz um verso. (Achille, claro, é corruptela do nome do herói da ``Ilíada".)
Já as paisagens, bichos, costumes, referências religiosas, alimentos, lendas, o mar -tudo é Caribe no tema de ``Omeros".
Na forma, não. Quando Walcott escreve que o grito da águia ``deixa uma cicatriz no céu", quando usa a imagem ``Elmos de crânios enlameados", quando narra ``Ouvi o lamento de uma concha soprada vindo da aldeia", som e imagem ultrapassam a cultura local.
E, como sabem os poetas brasileiros Haroldo de Campos e Régis Bonvicino, que falam em seguida a Walcott hoje à noite, poesia é texto. Não tem resumo. Para compreender ``Omeros" não basta acompanhar a narrativa; é preciso entender a narração.
E, por mais ``multicultural" que seja, há nela uma cultura-mestra -``cultura" sobretudo no sentido mais restrito, de técnica criativa. A cultura de raiz européia.
Por isso, anteontem, quando perguntado sobre sua pintura, Walcott, respondendo que ela é um complemento de sua poesia, citou: ``Posso escrever pensando na luz de um Vermeer", o grande pintor holandês (1632-1675).
Logo, tem toda razão em temer o rótulo ``multicultural" que, criado pelos americanos em certo contexto sóciopolítico, parte da premissa de que toda cultura tem, absolutamente, o mesmo valor.
Isto é, a palavra nasceu gasta. Como poeta, o que Walcott rejeita é justamente a palavra gasta.

Texto Anterior: Jackson lança dois singles do novo disco
Próximo Texto: Darcy Ribeiro defende sua teoria do Brasil como `a nova Roma'
Índice


Clique aqui para deixar comentários e sugestões para o ombudsman.


Copyright Empresa Folha da Manhã S/A. Todos os direitos reservados. É proibida a reprodução do conteúdo desta página em qualquer meio de comunicação, eletrônico ou impresso, sem autorização escrita da Folhapress.