São Paulo, domingo, 17 de novembro de 1996
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Brincar de boneca é tabu para meninos

AURELIANO BIANCARELLI
DA REPORTAGEM LOCAL

João costuma brincar de estar grávido e se diverte fazendo de conta que dá de mamar à sua boneca preferida. No quarto cor-de-rosa, ele mesmo monta a casinha da Barbie. João tem 2 anos.
Maria, a irmãzinha de 4, gosta tanto de boneca quanto de bola. Os brinquedos são comuns.
A família -que diz não estimular nem reprimir as brincadeiras- vê nesse jogo de boneca um fato positivo. "O menino precisa brincar de boneca e de casinha como as meninas", diz o pai e psicoterapeuta Paulo Silveira, 42.
Para ele, trata-se de um aprendizado para a futura paternidade. "Na medida em que os meninos começarem a brincar de casinha, eles vão ganhar autoconfiança e permissão interna para serem donos-de-casa mais tarde", afirma.
"Se não se estimular o menino a fazer tarefas como cozinhar e costurar, ele crescerá achando que isso é errado."
Em casa, é Silveira quem assume o fogão com maior frequência. "João sobe numa cadeira e me ajuda a cozinhar", diz. A mulher, a pedagoga e professora Lívia Aquino, passa boa parte do dia fora.
Aos que vêem com reprovação ou risinhos a idéia de meninos brincarem de boneca, Silveira contra-ataca.
"Acham que quem brunca de boneca vai virar 'viado'. Mas quando eese menino se tornar adulto, terá que trocar fraldas, dar banho e mamadeira. Se não bruncar quando criança, terá dificuldades".
O terapeuta Luiz Cuschnir, de São Paulo, acha que os meninos devem brincar de família, não de boneca. "O homem e o menino não devem imitar a mulher."
Cuschnir vê no brincar de boneca um possível indicativo de homossexualidade. "Quando o menino cresce, tem de fazer um esforço para se diferenciar da mulher, justamente porque ele vem de uma mulher. Se brincar como menina, ele corre o risco de não fazer esse distanciamento."
direito de escolher
Outro psicoterapeuta, Sócrates Nolasco, 32, do Rio de Janeiro, enxerga de outra forma. "Não acho que um menino vá se feminilizar porque brinca de boneca. O importante é que se sinta à vontade."
Ele lembra que muitos homossexuais passaram a infância brincando de mocinho e bandido e participando de brincadeiras violentas.
O estereótipo do "menino-bola-caminhão" e da "menina-boneca-casinha" divide também as crianças. Lorenza Capozoli, 7, acha que "menino não deve brincar de boneca". "Mais tarde eles aprendem a trocar fralda", sugere.
A irmã, Bruna, de 9 anos, acha a idéia "legal". "Eu brinco de carrinho, eles também podem brincar de boneca".
O irmão Emiliano, 12, sai pela tangente. "Cada um brinca do que gosta, mas de boneca eu não brinco. Na escola vão me chamar de boiola."

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