São Paulo, quinta-feira, 01 de março de 2007

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Diários reviram o mito Shakespeare

Baseado no fictício "O Relato Íntimo de Madame Shakespeare", peça de Emílio Di Biasi divide personagem em duas

Norma Bengell e Maria Manoella interpretam Anne Hathaway em momentos diferentes da vida, mas coexistem no palco


Lenise Pinheiro/Divulgação
Maria Manoella e Norma Bengell (à frente), em cena de "O Relato Íntimo de Madame Shakespeare', que estréia hoje no CCBB


GUSTAVO FIORATTI
COLABORAÇÃO PARA A FOLHA

De olhos vendados, Anne Hathaway se deixa conduzir pelas mãos de seu marido, William Shakespeare, a um quarto sobre uma peixaria, numa Londres do final do século 16, fétida, infestada de ratos e doenças. A cena transcorre já pelo final, próxima ao clímax de "O Relato Íntimo de Madame Shakespeare", diário fictício da mulher do dramaturgo inglês escrito pelo britânico Robert Nye e agora adaptado para o palco por Emílio Di Biasi.
A montagem marca o retorno ao teatro, depois de dez anos, da veterana Norma Bengell, célebre por seus papéis no cinema. Ela divide o palco com a jovem Maria Manoella, que participou de "Ricardo 3", com direção de Jô Soares.
A cena descrita parece aludir aos mistérios acerca da biografia do autor de "Hamlet", "Ricardo 3", "Macbeth" e outras obras-primas da dramaturgia ocidental.
Uma menção biográfica, em especial, persiste como a proclamação de um segredo nas memórias aferidas pela personagem, já viúva, mas ainda calcificando a figura de seu marido: o fato de Shakespeare ter deixado para Anne, em seu testamento, "a sua segunda melhor cama".

Casamento forçado
Entre os estudiosos da vida e da obra Shakespeare (1564-1616), há especulações acerca dessa "segunda melhor cama" e de seus significados.
O que se sabe ao certo é que, ao engravidar pela primeira vez, Anne tinha 26 anos, Shakespeare, 18, e que, portanto, é bem plausível a possibilidade de terem se casado por força das circunstâncias e sob a pressão dos pais dela. Também é certo que os dois passaram boa parte do casamento separados, ele em Londres, ela em Stratford-upon-Avon.
Essa segunda cama pode ser entendida como uma rejeição póstuma? Certamente que sim.
Mas, baseada na reconstituição dos costumes elisabetanos, outra explicação parece melhor.
Na época em que viveu Shakespeare (séculos 16 e 17), a melhor cama da casa seria sempre destinada aos hóspedes. E a segunda melhor cama seria o leito nupcial. De qualquer forma, o diário desembaraça uma série de lembranças da personagem-narradora acerca de Shakespeare e de um suposto desapreço dele em relação a ela. Anne, insegura, se angustia com o comportamento do marido. "Eu estava tremendo. Meus dentes rangiam. O senhor Shakespeare tirou seu casaco e o colocou em mim. "Anime-se, meu outono", ele me disse. Desde a minha chegada em Londres, essa foi a maior prova de afeição que ele havia me dado. Ele nunca foi muito carinhoso, não comigo, pelo menos."

Divisão
Essas impressões e memórias de uma personagem-narradora divididas por duas atrizes de idades diversas dão ao diário um outro sabor. O diretor Emílio Di Biasi foi quem optou pela divisão, sob o argumento de que, no texto, enxergou dois perfis muito distintos da protagonista: "Existe uma Anne leve e mais jovial, ainda romântica; e existe uma Anne mais densa, que tem os pés no chão, e que já enxerga tudo aquilo como algo mais distante". A coexistência da mais idosa e da mais jovem -elas trocam olhares o tempo todo- de certa forma leva o relato para um plano metafísico.
O realismo com que o diário é escrito pelas mãos de Nye, até certo ponto bastante didático, com sua evolução quase careta, se desmancha em uma encenação simbolista, sintetizada numa placa de acrílico do cenário de André Cortez que divide o espaço do palco, colocando a jovem e a velha Anne de lados opostos.

O RELATO ÍNTIMO DE MADAME SHAKESPEARE
Onde:
Centro Cultural Banco do Brasil -SP (r. Álvares Penteado, 112, tel. 3113-3651)
Quando: qui., às 20h; sex. e sáb., às 19h30; dom., às 18h. Estréia hoje. Até 13/5
Quanto: R$ 15


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