São Paulo, quarta-feira, 18 de maio de 2011

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CRÍTICA DANÇA

"Objeto Gritante" cria olhar poético sobre a condição humana

Nova coreografia da companhia Maurício de Oliveira & Siameses traz parceria com o trabalho de Duda Paiva

Daniel Marenco/Folhapress
Cena do espetáculo "Objeto Gritante", que une dança com a manipulação de bonecos

FLAVIA COUTO
COLABORAÇÃO PARA A FOLHA

Em sua sexta edição, o programa Artista da Casa do TD-Teatro de Dança apresenta o espetáculo "Objeto Gritante" de Maurício de Oliveira & Siameses em parceria marcante com Duda Paiva e seus bonecos de espuma.
É um trabalho que brinca com as concepções rígidas sobre identidade e as inegáveis máscaras compartilhadas no convívio social.
Logo na primeira cena o bailarino Ditto Leite encarna o papel de uma espécie de fêmea animal indistinta. A figura andrógina sob a luz soturna causa dúvidas.
"Objeto Gritante" continua sua cena enigmática assim, trazendo à luz corpos bizarros e Membros alterados pelos objetos. Em sua maioria são máscaras de rostos que se retorcem junto aos movimentos dos bailarinos.
Rostos elásticos com feições contundentes e transformados constantemente -essa imagem estabelece o paralelo poético com a questão da identidade humana.
Em meados do século 18, a identidade era concebida como um tipo de essência exclusiva de cada sujeito. Pouco sofria mutações, sendo constante e racional. De lá pra cá, tal conceito sofreu abalos e crises.
Diferente da concepção que imperava, sabe-se hoje que a identidade está na mistura das múltiplas informações que atravessam o sujeito durante todo seu percurso de vida. Cria-se, aqui, um tipo de subjetividade fragmentária, mutável e realizada na relação com o coletivo.
É no ambiente de máscaras múltiplas e de imprevisibilidade identitária humana que a coreografia de Maurício de Oliveira ecoa seu grito. Maurício e Ditto dançam o feio, a mulher e o bicho.
Transitam entre essas figuras, se valem das máscaras e desmascaram-se quando dançam sem nenhum objeto.
A única falha aparece no texto falado por Maurício em certa altura do espetáculo. É um enunciado sobre a relação dança/artista que acaba por perder a força, pois entra em disputa direta com um rinoceronte (literalmente) que toma de assalto o olhar do espectador.
A ênfase metalinguística que o texto poderia despertar dissipa-se. No entanto, a coreografia madura de Maurício unida aos excelentes bonecos de Paiva metaforizam de modo poético e eficaz a condição transitória da subjetividade humana.

OBJETO GRITANTE

QUANDO qui. e sex., às 21h; sáb., às 20h; dom., às 18h; até 29/5
ONDE Teatro de Dança (av. Ipiranga, 344; tel. 2189-2555)
QUANTO R$ 10
CLASSIFICAÇÃO 12 anos
AVALIAÇÃO bom


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