São Paulo, domingo, 01 de maio de 2005

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HERANÇA MILITAR

Depoimentos de 36 testemunhas mostram que tática do terror foi decisiva no Araguaia

Ex-militares relatam tortura do Exército contra guerrilha

JOSIAS DE SOUZA
ANDRÉA MICHAEL
ENVIADOS ESPECIAIS A MARABÁ (PA)

"Quem tem coração aí?" Era abril de 74. A pergunta intrigou José Cícero Bezerra Filho. Incorporado ao Exército havia quatro meses, ele recebia instruções para sua primeira missão. Voara de Marabá (PA) num avião Búfalo. Acabara de aterrissar na base do Exército em Xambioá (TO).
O local não tinha a aparência de uma instalação militar. O comandante recepcionou os recrutas à paisana. Escondido atrás de um codinome ("doutor Ângelo"), falou sem rodeios: "Quem tem coração deve deixar pra trás. Aqui ninguém tem coração".
Bezerra Filho despiu a farda. Rebatizaram-no de "Jesse". Tornou-se sentinela em Xambioá. Não precisou vigiar muito para perceber que o naco de selva ocupado pelo Exército às margens do rio Araguaia tornara-se um centro de torturas.
"Era batendo com cipó, choque, fio ligado na orelha", recorda Bezerra Filho, 57. "Botava o cara no chão e passava com a caminhonete por cima, o sujeito no meio, vendo a roda passar do lado da cabeça. Quem tava na base via."
No último dia 21, Bezerra Filho e outros 45 ex-militares reuniram-se no Hotel Itatocã, em Marabá. Unia-os o fato de terem testemunhado a Guerrilha do Araguaia (1972-1974). A reportagem da Folha entrevistou 36 dos presentes.
Os depoimentos, todos gravados, revelam: para prevalecer sobre os cerca de 70 guerrilheiros que o PC do B mantinha enfurnados na selva amazônica, o Exército brasileiro humilhou, espancou e deu choques elétricos em guerrilheiros e colonos; fuzilou e decapitou inimigos rendidos.

"Muita tortura"
O ex-soldado Adaílton Vieira Bezerra, 50, fiscal fazendário em Marabá, deu expediente nos porões do Araguaia como "enfermeiro" do Exército. Em Xambioá, era chamado de "Paulo". "Assisti a muita tortura", disse.
Resumiu assim uma das modalidades: "Preparavam a lama de fezes e urina. Colocava-se uma tábua, duas latinhas, a pessoa ficava em cima e tinha um fio para segurar. O fio tinha trechos desencapados. Aquele cabo recebia corrente elétrica vinda da bateria ou do gerador".
O "enfermeiro" Vieira Bezerra socorreu torturados. "Era quando a pessoa tinha medo de falar. Ela continuava apanhando, continuava a tortura, até ficar escornada, vazando sangue pela boca, pelo ouvido". Os "interrogatórios" eram retomados. "Nova sessão de tortura e nós trabalhávamos de novo para reanimar."
O terror contaminou "investigações" feitas à margem da guerrilha. Em julho de 74, um destacamento do 52 BIS (Batalhão de Infantaria de Selva) voou de Marabá para Tucuruí. Fez cerca de 30 prisioneiros, supostamente envolvidos com grilagem de terras. Espancaram-se todos.
Sargento à época, João Manoel do Nascimento, 58, hoje instrutor de auto-escola, contou: "Batiam neles com uma espécie de borduna preparada com babaçu. As paredes eram espirradas de sangue. Ainda tinham que cantar: "É um tal de bate-bate, é um tal de pula-pula". Rodavam em torno de uma mesa, dançando".
A gritaria dos presos de Tucuruí ainda ressoa na memória do ex-recruta Ernani da Silva, 50. Seu pai, Sandoval, um vereador do PC do B, era um dos detidos. "No primeiro dia que meu pai estava preso, eu fui tirar guarda no quartel. Levei ele várias vezes para a sala de tortura. A gente ficava na porta e escutava a tortura, os gritos. Sofriam telefones, pancadas no saco, nos rins, nas costas."

Músico "terrorista"
O recruta Rosimar Nunes da Silva, 50, alistara-se em janeiro de 74. Queria ser músico de bandas militares. Desceu à base de Xambioá, onde "ninguém tem coração". "Quando chegamos", rememorou, "um oficial disse: "Aqui vocês não são soldados, são guerrilheiros. Podem tirar as fardas. Não sabíamos se éramos soldados ou terroristas disfarçados".
Segundo Eduardo Xavier de Oliveira, 51, o enxoval de Xambioá resumia-se ao seguinte: "Camisa de manga comprida, calça faroeste, botina, chapéu de palha". Os fuzis eram disfarçados "dentro de uma saca de estopa".
Foi assim, camuflada, que a violência oficial bateu à porta dos colonos suspeitos de colaborar com a guerrilha. "O capitão mandou eu cortar meia dúzia de cipós", relatou Raimundo Lopes Silva, 57. "Tinham trazido um pretão e uma velhinha. Montaram no lombo desse preto com o cipó. A velhinha foi muito humilhada também. Botaram ela dentro de um buraco. Passou a noite toda, chovendo. De manhã, tiraram a velha toda encarquilhada. O que foi feito dela eu não sei."
Conduzido à base de Xambioá por ter reagido à abordagem de um sargento chamado Anselmo, um rapaz ousou dizer: "Lá no Brasil, a coisa é diferente". O ex-recruta Antônio Adalberto Fonseca, 56, conta que "o preso" recebeu "um caderno, três canetas" e uma ordem: "Tu vai escrever nesse caderno, até encher ele todo: "Aqui também é Brasil'". Varou a noite escrevendo, sob vara.
O Exército mantinha outras três usinas de maus-tratos. A base da Bacaba era a mais temida. Funcionava no quilômetro 68 da Transamazônica. Era, segundo o "enfermeiro" Vieira Bezerra, "o centro de todo tipo de tortura".

Fuzilamento
Torturava-se também na "Casa Azul". Pertencia ao DNER, mas virou depósito de presos do Exército. Por fora, sobressaía a cobertura azulada. Por dentro, as manchas de vermelho. Ernani da Silva, o recruta que conduzira o próprio pai à sala de torturas, montou guarda durante 30 dias na "Casa Azul". Viu o entra-e-sai de algozes. "Vinha torturador de Manaus, de Brasília, do Rio. Lembro de um, chamado Murilo. A maioria tinha nomes de guerra. Tinha um sargento conhecido por Zorro. Usava um chapéu preto."
Na base de São Geraldo (PA), separada de Xambioá pelas águas do Araguaia, não havia tortura. Ali, o Exército atuava de cara limpa, uniformizado. Quando prendia alguém, mandava para o inferno do outro lado do rio.
Embora não conduzisse inquéritos policial-militares nem formulasse denúncias, Xambioá produzia sentenças. Numa noite de outubro de 74, montando guarda, José Cícero Bezerra Filho viu uma delas sendo executada.
Munido de fuzil Fal, "doutor Ângelo" executou Walquíria. Era Walquíria Afonso Costa, 28, uma das últimas guerrilheiras mortas. Fora capturada na véspera. Estava debilitada. Enterraram-na atrás da enfermaria da base, ao lado da cova de uma legenda da guerrilha, Osvaldo Orlando da Costa, o Osvaldão. Morto em fevereiro de 74, teve a cabeça decepada.
O crânio de Osvaldão não foi o único a ser apartado do pescoço. O ex-soldado Raimundo Antônio Pereira de Melo, 51, viu chegar em Xambioá, em setembro de 74, "um saco com três cabeças dentro". Àquela altura, mais do que perder as cabeças, a militância do PC do B já havia perdido a guerra.

"Anjinho"
O Exército farejara o rastro do PC do B na selva no início de 72. Os guerrilheiros resistiram, com poucas baixas, a duas campanhas armadas. José Ribamar da Silva, 53, disse que a soldadesca tateou a mata sem preparo. "Foi o mesmo que pegar um aluno do primário e colocar na faculdade."
Humilhado pela sobrevivência de um inimigo inferior, o Exército abriu, já em 72, um porão em Marabá. Torturava-se no Tiro de Guerra. Ali, Carmélio Araújo dos Santos, 54, conheceu o "anjinho" -armação metálica côncava, com parafusos em volta. "Aperta a cabeça e o cabra tem que dizer. Eles levavam para um quarto e a gente escutava só os gritos".
Em 73, abastecido com informações recolhidas por espiões que infiltrara nas comunidades locais, o Exército mapeou a guerrilha. Com a ajuda de colonos que lhe serviram de guias na mata e o recurso ao terror, esmagou-a.
Pelas contas do Ministério da Justiça, 61 guerrilheiros foram moídos na linha de desmontagem operada pelo Exército na selva amazônica.


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