São Paulo, domingo, 3 de janeiro de 1999

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MÍDIA
Boa parte das novas rádios e TVs continuam sendo dadas a grupos políticos
"Coronelismo eletrônico" sobrevive com concessões

Teotônio Vilela Filho (PSDB), cujo irmão tem concessão de rádio ELVIRA LOBATO
da Sucursal do Rio

FERNANDO GODINHO
da Sucursal de Brasília

Levantamento feito pela Folha mostra que parte das novas concessões de rádio e TV oferecidas em concorrência pública pelo Ministério das Comunicações está sendo adquirida por grupos políticos, reforçando o "coronelismo eletrônico" no interior.
No Amapá, a família do senador Gilvam Borges (PFL) comprou as cinco concessões para o Estado leiloadas pelo governo federal: uma de TV (em Macapá) e quatro concessões de rádio, sendo duas FM (Santana e Oiapoque) e duas AM (Santana e Mazagão).
No Maranhão, o secretário da Assembléia Legislativa, Leão Santos Neto, do PSDB, arrematou as quatro concessões de rádio que o ministério colocou em licitação pública.
Ex-prefeito no interior do Estado, Santos Neto vai instalar emissoras de rádio em Codó, Viana, Vitória do Mearim e Urbano Santos, cidades importantes no mapa político do Maranhão.
Em Alagoas, a concessão de rádio para a cidade de Viçosa foi adquirida por Elias Brandão Vilela Neto, irmão do presidente nacional do PSDB, senador Teotônio Vilela Filho.
O Ministério das Comunicações acaba de concluir a primeira licitação pública para venda de concessões de radiodifusão no Brasil. Iniciada em fevereiro do ano passado, ela envolve 48 rádios FM, 17 rádios AM e nove TVs. A venda de 12 concessões está parada na Justiça. Nos demais casos, os vencedores terão de aguardar a homologação das concessões pelo Congresso Nacional, o que pode se arrastar por, pelo menos, mais seis meses.
O resultado desse primeiro lote mostra que as concessões acabaram divididas entre empresas, políticos e igrejas. Ou seja, manteve-se o perfil atual da radiodifusão.
Nas grandes e médias cidades, as novas concessões foram absorvidas por grupos empresariais, principalmente por empresas de comunicação interessadas em ampliar seu campo de atuação. Políticos e igrejas ganharam em cidades menores, onde as emissoras ainda são vistas mais como armas eleitorais e de conquista de fiéis do que como atividade empresarial.
Os políticos, na maioria dos casos, fizeram-se representar por parentes ou aliados. O senador Gilvan Borges, por exemplo, não aparece como sócio da Beija-Flor Radiodifusão, que comprou todas as concessões do primeiro lote para o Amapá. Quem aparece são seus irmãos Geovani e Luiz Gionilson.
Fazer-se representar por parentes e aliados é recurso comum entre políticos. Domingos Feitosa Perim, sócio da empresa Rádio Cultural Venda Nova FM, que comprou a concessão de rádio de Itatiba (ES), diz que "emprestou" o nome para o irmão Décio Perim, presidente local do PMDB. "O intuito da rádio é comunitário e não empresarial", diz ele.
Um dos poucos casos em que o político aparece como sócio ocorreu no Rio Grande do Sul. O prefeito de Guarani das Missões, Jerônimo Jaskulki (PMDB), e o vice-prefeito, Cilon Karkow (PPB), compraram a primeira concessão de rádio da cidade.
Segundo Karkow, os dois decidiram disputar a licitação para impedir que grupos de fora comprassem a concessão.
Ainda não é possível precisar o número de concessões assumidas por políticos. Em Minas Gerais, pelo menos três concessões de rádio -as de Salinas, Sacramento e Ouro Preto- foram adquiridas por grupos ligados a políticos.
No setor de radiodifusão, dá-se como certa a informação de que o grupo que comprou a concessão de TV na cidade de Santos seria ligado ao prefeito, Paulo Roberto Mansur. A empresa que comprou a concessão -por R$ 2,57 milhões- se chama PRM, ou seja, as iniciais do nome do prefeito.
O proprietário da empresa, Marcos Vieira, nega vínculo com o prefeito e diz que escolheu a sigla por "coincidência". Proprietário de uma firma de assistência técnica a emissoras de TV, ele foi, por dez anos, técnico da Rádio Cultura de Santos, de Mansur.

Empresas
A maior parte das empresas que compraram concessões de rádio e TV vem do setor de comunicação. É o caso do "Diário de Mogi", que venceu a disputa pela concessão de uma TV em Mogi das Cruzes, na Grande São Paulo.
Foi uma das concessões mais disputadas. A família San Biagio, dona do jornal local, pagou R$ 3,2 milhões pela concessão, quando o preço mínimo era de R$ 200 mil. O segundo colocado -a empresa Astral, do cantor Fábio Júnior- ofereceu R$ 1,35 milhão.
"É melhor ganhar por muito do que perder por pouco", afirma Túlio Da San Biagio, diretor-superintendente da empresa.
Ele diz que a TV era um sonho antigo da família.
Entre as empresas que saíram vencedoras no primeiro lote de concessões, está o grupo Arisco (do setor alimentício), que comprou uma concessão de TV para a cidade de Palmas (TO) e a rádio FM de Aparecida de Goiânia (GO).

Igrejas
Pelo menos duas concessões de rádio foram arrematadas por grupos religiosos. A rádio FM de Nova Granada (SP) foi adquirida por pastores evangélicos da Assembléia de Deus e da Igreja Pentecostal Sermão da Montanha, que se associaram para o empreendimento.
No Rio Grande do Sul, a Fundação Navegantes de Porto Lucena, ligada à Igreja Católica, comprou aconcessão de rádio FM para a cidade de Campina das Missões. A fundação já possui duas rádios no interior do Estado.



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