São Paulo, quarta-feira, 04 de outubro de 2006

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Marcos Nobre

A imagem do dinheiro

O SEGUNDO TURNO não servirá para "aprofundar as propostas", "discutir o país" ou qualquer outro desses clichês habituais. A campanha foi ruim e não vai melhorar.
Alckmin até agora não disse a que veio. E vai continuar assim, porque nada tem mesmo a dizer. Lula vai continuar na campanha plebiscitária de aprovação do seu governo. Não vai além disso.
É esse o sentido do instituto da reeleição. O que está em jogo é uma aprovação ou uma reprovação do governo em curso. O governo do candidato à reeleição estabelece a pauta de discussão. Quanto mais altos os níveis de aprovação do seu governo, maior a capacidade do candidato à reeleição de estabelecer a agenda da eleição.
Alckmin está obrigado a discutir o governo Lula. Mas não conseguiu dizer nada de relevante até agora. Quando muito, disse que faria exatamente as mesmas coisas só que melhor. Não colaborou para a qualificação do debate eleitoral.
Sua candidatura vive da rejeição a Lula e dos repetidos escândalos de banditismo político. De positivo, conta com o apoio envergonhado de lideranças tucanas e pefelistas. Não dá para ganhar eleição assim. Nem para melhorar nível de campanha.
Uma parte importante das decisões de voto de última hora foi simplesmente expressão da vontade de realização do segundo turno e não o resultado de um entusiasmo repentino com a candidatura Alckmin.
O que mais se ouve é que o segundo turno veio do dossiê, da ausência no debate e da imagem do dinheiro. Em 2002, também se disse que a imagem do dinheiro tinha causado a derrocada da candidatura presidencial de Roseana Sarney. Mas é difícil imaginar que a foto de um monte de maços de notas possa realmente ser decisiva.
Se há imagem que levou ao segundo turno foi a de um persistente descontrole da máquina petista. A possibilidade de que os esquemas mafiosos persistam e possam vir a ter influência num eventual segundo mandato foi decisiva aos rumos da votação de 1 de outubro. A tarefa de Lula nas próximas semanas é convencer o eleitorado de que o banditismo partidário será banido.
Mais que isso, Lula terá de convencer esse eleitorado que não o rejeita, mas lhe é ainda resistente de que seu próximo governo não se confundirá com o PT. Para isso, será obrigado a mostrar afinal qual arco de alianças pretende construir no segundo mandato. Vai ter de colocar na mesa as cartas que pretendia guardar na manga de uma vitória em primeiro turno. Essa vai ser a verdadeira novidade dessa nova etapa da campanha e, talvez, um ganho para o debate político.
Nenhuma candidatura conseguiu abalar o pilar da campanha à reeleição: o de que não haveria de fato opção melhor ao governo Lula. Alckmin depende do noticiário policial para manter viva sua candidatura. E imagens, mesmo de dinheiro, passam.


MARCOS NOBRE é professor de filosofia política da Unicamp e pesquisador do Cebrap

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