São Paulo, domingo, 05 de junho de 2005

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CORRUPÇÃO EM DEBATE

Anfitrião de fórum internacional, governo usará PF para mostrar que não rouba nem deixa roubar

Lula tenta dissociar governo de denúncias

JULIA DUAILIBI
DA SUCURSAL DE BRASÍLIA

Constrangido por ser anfitrião de um evento internacional sobre corrupção num momento em que aparecem denúncias de desvios de recursos públicos em órgãos federais, o governo fará nesta semana um "esforço coletivo" para afastar da gestão petista os indícios de irregularidades.
O palco para isso será o 4 Fórum Global de Combate à Corrupção, que ocorre entre os próximos dias 7 e 10, em Brasília. O encontro terá a participação do presidente Luiz Inácio Lula da Silva e dos ministros Márcio Thomaz Bastos (Justiça) e Waldir Pires (Controle e Transparência).
Tanto o presidente como os dois ministros irão para o ataque. Já foram produzidas apresentações e balanços sobre todas as operações da Polícia Federal de combate à corrupção e as auditorias realizadas pela Controladoria Geral da União. A idéia é passar a imagem de que o governo não rouba nem deixar roubar.
"Acho que é essa a hora de ocorrer [o fórum]. Não creio que haja onda de denúncias. Se abrirmos a onda de denúncias, [veremos que] são gigantescas anteriormente. O que há nesse momento é uma posição muito ativa da oposição política, e do governo adotando todas as medidas de combate à corrupção", disse o ministro Waldir Pires sobre o fórum.
Sob o olhar crítico de especialistas sobre o tema do mundo interior, o presidente anunciará a assinatura de decreto que ratifica a adesão do Brasil à convenção das Nações Unidas contra a corrupção. O texto trata, entre outros pontos, da repatriação de dinheiro de origem ilegal. Há a expectativa de que o presidente anuncie o decreto que estende a sindicância patrimonial (procedimento administrativo de caráter investigativo) a todas esferas do governo.
De acordo com Cláudia Chagas, secretária nacional de Justiça, o Brasil terá a oportunidade de expor o trabalho de combate à corrupção, como as "diversas operações" feitas pela Polícia Federal.
Participante do fórum, Mark Davies, diretor-executivo do escritório que analisa os conflitos de interesse em Nova York, diz que as operações repressivas de combate à corrupção não são suficientes por si só. "Se um país tem muitos processos e investigações sobre corrupção, a população acreditará que esse país é muito corrupto. Se o país tem poucas investigações dessa natureza, as pessoas vão pensar que os casos de corrupção são encobertos."
Para Axel Dreher, do Thurgau Institute of Economics, uma das formas de combate à corrupção em países como o Brasil é a melhora na máquina pública com o conseqüente aumento do salário dos servidores que atuam na burocracia estatal. O pesquisador, que também virá ao Brasil, defende recompensas para cada caso de corrupção que seja levado a julgamento e suporte financeiro a testemunhas que relatem casos de desvio de dinheiro público.
Dreher afirma que a corrupção no Brasil ainda é um obstáculo ao crescimento. Segundo seus estudos sobre o tema, o país perde, por ano, 22% do seu PIB com esse tipo de ato ilícito. Nos cálculos do Banco Mundial, as perdas internacionais com a corrupção chegam a US$ 1 trilhão por ano.
No fórum, um dos pontos a serem explorados pelo governo será o projeto que pretende disciplinar o conflito de interesses. A proposta quer ampliar o período de impedimento, hoje em quatro meses, para que ex-ocupantes de cargos públicos possam atuar no setor privado na sua área de gestão.

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