São Paulo, quarta-feira, 24 de novembro de 2004

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ELIO GASPARI

De Figueiredo@edu para Lula@org

Companheiro Lula,
Outro dia reunimos a turma que carregou a cruz que hoje está nas tuas costas. Falamos do teu governo e as coisas continuam mais ou menos no mesmo pé. O Getúlio diz que você se deixa escorchar pela banca e dá aos trabalhadores a impressão de que devemos retribuir a boa vontade dessa gente. A verdade é que ele nunca foi com tua cara. O mesmo não se pode dizer do Juscelino, encantado com a história do Lula. Ele descreve a tua vida como se fosse uma realização do governo dele.
Estou te escrevendo em nome do Grupo dos Cinco, o G5: JK, Jango, Castello Branco, Ernesto Geisel e eu. Eles pediram que eu fosse o porta-voz porque chegaram à conclusão de que somos parecidos.
É verdade que no meu governo você passou 31 dias preso, mas não foi coisa pessoal. Os teus ternos estão sempre apertados, os meus também. Você não se incomoda de ser fotografado com as pernas de fora. Eu também não. Você prefere morar na Granja do Torto e sempre que pode procura quebrar a teatralidade de uma conversa soltando um palavrão teatral. Eu também.
O G5 quer mandar cinco sinais para você:
1) Você acha que o Palocci está certo? Então não mexa nele. Não pisque. O Jango avisa: "Minha fritura começou em 1963, quando tirei o Carvalho Pinto do Ministério da Fazenda". Eu mesmo fiz besteira quando deixei o Mário Henrique Simonsen ir embora, em 1979. O Castello ouve essas queixas e ri, porque ele bancou o Roberto Campos e o Otávio Bulhões a despeito de tudo. O problema de confiar no Palocci é teu. Nós não endossamos o que faz esse moço. Estamos apenas recomendando firmeza porque daqui de onde estamos nossa visão é clara: você não tem mais retaguarda.
2) Não loteie seu governo. Todos nós, em algum momento, achamos que devíamos entregar um ministério a um finório para atender exigências da bancada. Tudo falso. Em geral o espertalhão custa caro e a bancada, ao ser atendida, quer mais. O Castello sempre repete: "O inimigo comum é o Erário". Uma das nossas maiores diversões é azucrinar o Ulysses Guimarães, lembrando que esse tal de PMDB foi fundado por ele.
3) Não faça substituições com o banco de reservas. Se você deixa, a turminha do palácio tem excelentes nomes para tudo. Tudo nulidade. Se o sujeito é o segundo, isso significa que não devia ser o primeiro. Meio envergonhado, até o Jango concorda. Fizemos uma pesquisa ouvindo do Deodoro ao Jânio: nunca, em nenhum governo, um poderoso palaciano indicou, para qualquer cargo na sua área de influência, alguma pessoa que pudesse vir a ocupar o seu lugar.
4) Lula, nenhum dos teus ministros da área social é capaz de entregar um embrulho ao meio-dia na esquina da Rio Branco com a Ouvidor. Você não tem mais tempo para fazer um terço do que eles prometem. Veja bem: eles prometem, mas quem não cumpre é você. Separe dois projetos por ministério e coordene o trabalho pessoalmente. (Ressalva: o Castello e o Geisel discordam dessa parte da proposta. Para não alimentar antipatias, não conto por que).
5) Finalmente, a principal sugestão do G5: separe cirurgicamente a coordenação política da Casa Civil. Nomeie um operador e despache sozinho com ele. Você produziu um cruzamento de girafa com hipopótamo. Esse monstro está arruinando o teu governo.
Despeço-me com uma nota pessoal. Se no meio da noite alguém te disser que estourou uma bomba e que tem gente da tua estima envolvida, mande apurar, vá fundo, não vacile. Foi nessa que eu dancei.

Abraço do
João Figueiredo


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