São Paulo, Quarta-feira, 01 de Dezembro de 1999


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CIÊNCIA
DNA confirma nova rota de êxodo de humanos

MARCELO LEITE
especial para a Folha

Muito se discute se o futuro do homem está ou não nos genes, mas é certo que um bom pedaço de seu passado está. Analisando filigranas do DNA de populações atuais, cientistas europeus provaram que a espécie humana usou também um segundo caminho para sair da África, via Etiópia.
O trabalho sai este mês na revista "Nature Genetics". A autora principal é Augusta Silvana Santachiara-Benerecetti, da Universidade de Pavia (norte da Itália).
O Homo sapiens (espécie humana) surgiu na África há mais de cem milênios, talvez 200. Por volta de 100 mil anos atrás, deixou pela primeira vez o continente, mas não passou o Oriente Médio.
Uma segunda onda teve mais sucesso, ao percorrer a mesma via 50 mil anos depois. A razão disso foi uma revolução tecnológica, a do Paleolítico Superior, quando surgiram instrumentos de osso e de chifre, entre outras inovações. Desencadeou-se então o povoamento da Eurásia (veja mapa).
Nenhuma das duas, contudo, é capaz de explicar a chegada do homem à Austrália há 60 mil anos, pelo menos. Para resolver esse problema, propôs-se um êxodo intermediário, entre 60 mil e 70 mil anos atrás, com outro rumo: Etiópia, península Arábica e litoral da Ásia, até o Sudeste Asiático, Austrália e ilhas do Pacífico.
Essa teoria não contava até agora com fortes evidências fósseis, prato de resistência no menu metodológico dos paleoantropólogos (que estudam os primeiros humanos).
A equipe de Santachiara-Benerecetti trabalhou com o marcador genético haplogrupo M, presente no DNA mitocondrial (mtDNA). Como já se percebe, quando geneticistas tomam o chapéu de paleoantropólogos o resultado pode ser um tanto difícil de entender.
Mitocôndrias são os órgãos celulares responsáveis pela produção de energia. Tornaram-se populares entre cientistas que estudam linhagens populacionais, assim como o cromossomo Y. Sua vantagem está na transmissão uniparental (por apenas um dos pais). O DNA de mitocôndrias só é herdado da mãe e o do Y, do pai.
De posse de uma hipótese como a da rota etíope, investigadores passam a comparar genes de populações atuais. Partem em busca de características únicas e compartilhadas, que permitam relacioná-las. Fazem também estimativas sobre a época de mutações nesses traços genéticos.
Os dados são tratados com ajuda intensiva da matemática. Sem computadores, seria impraticável reconstruir as árvores batizadas de filogenias. Não por acaso, um dos autores do artigo é um matemático, Hans-Jürgen Bandelt, da Universidade de Hamburgo.
Bandelt, um especialista em análise combinatória, disse por fax à Folha que seu interesse por biologia molecular começou há 18 anos. Hoje, tem nesse campo colaborações até com brasileiros, como o geneticista Sérgio Danilo Pena, da Universidade Federal de Minas Gerais.
O matemático alemão não se entusiasmou com uma analogia proposta pela Folha: comparar o haplogrupo M com artefatos de pedra de uma determinada tradição tecnológica. "Pesquisas com DNA mitocondrial, quando apresentadas a leigos, estão fadadas a serem mal entendidas."
Por essa analogia, as "ferramentas" (traços genéticos) de tipo M teriam sido encontradas tanto na Etiópia quanto na Índia e no Sudeste Asiático, mas escavadas de profundidades diversas. Quanto mais para leste, mais elas estariam próximas da superfície (e seriam portanto mais recentes).


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