São Paulo, terça-feira, 06 de setembro de 2005

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TRANSPORTES

Reforma em Itanhaém (litoral sul de SP) custou R$ 5,5 mi; neste ano, movimento médio foi de 5 pessoas ao dia

Alckmin amplia aeroporto "fantasma"

FABIO SCHIVARTCHE
DA REPORTAGEM LOCAL

MOACYR LOPES JUNIOR
REPÓRTER-FOTOGRÁFICO

Itanhaém, no litoral sul de São Paulo, tem 85 mil habitantes, praias de areia dura e agora um aeroporto totalmente reformado e ampliado, com uma pista capaz de receber até um Boeing 737, com cem passageiros a bordo.
Inaugurado na década de 50 com apenas uma pista de terra, o aeroporto estadual Antônio Ribeiro Nogueira Júnior passou nos últimos cinco anos por grandes modificações. Ganhou um terminal de passageiros, sede para os bombeiros, estacionamento, pátio de aeronaves e uma pista de 1.350 metros de extensão -maior até do que a do aeroporto Santos Dumont (RJ), por onde é feita a ponte aérea Rio-São Paulo.
Ao lado do gasto de R$ 5,5 milhões da administração Geraldo Alckmin (PSDB) para concluir a reforma em dezembro do ano passado, o que chama a atenção é o pequeno movimento: apenas cinco pessoas, em média, utilizaram o aeroporto a cada dia, entre janeiro e julho deste ano.
Há dias em que não há nenhum pouso ou decolagem em Itanhaém. Entediados, funcionários fazem palavras cruzadas e alguns até cochilam nas dependências do aeroporto no horário de serviço.
O secretário estadual dos Transportes, Dario Rais Lopes, justifica os gastos com a obra com dois argumentos: diz que a reforma do aeroporto aumentou a segurança de vôo no Estado -dando mais uma alternativa de pouso para aviões que tenham problemas durante o vôo- e propiciou uma melhor infra-estrutura turística para o litoral sul.
"O aeroporto será um indutor para o crescimento da região", diz Lopes (leia texto na pág. C3), que comemora o aumento de 17% no movimento de aeronaves em julho deste ano em comparação com o mesmo mês de 2004.
Mas as estatísticas do Daesp (Departamento Aeroviário do Estado de São Paulo), órgão que controla 30 aeroportos pequenos e médios do Estado, mostram uma realidade diferente da festejada pelo governo.

Queda no movimento
Em relação ao número de pousos e decolagens, o pico dos últimos cinco anos foi registrado em 2002, ano em que o secretário Lopes, piloto amador, estreou a nova pista no comando de um avião Seneca, um bimotor.
O aeroporto de Itanhaém teve então 5.241 movimentações de aeronaves entre janeiro e julho daquele ano.
Mas de lá para cá, enquanto as obras eram feitas, o tráfego aéreo diminuiu em Itanhaém. Nos primeiros sete meses deste ano, foram registrados 4.088 pousos e decolagens -valor inferior até mesmo em relação ao mesmo período do ano passado, com 4.138 movimentações aéreas.
Em relação ao número de passageiros que utilizam o aeroporto, os números do Daesp também revelam uma diminuição gradativa.
Em 2000, ano em que começou a reforma, 2.542 passageiros passaram pelo aeroporto entre janeiro e julho. O número foi caindo gradativamente até chegar aos 1.068 deste ano. De 17 aeroporto mais movimentado por passageiros dos 30 mantidos pelo Daesp, passou para 21 neste ano.

Sem estudo
Para decidir pela reforma e ampliação do aeroporto de Itanhaém, o governo estadual não utilizou estudos técnicos para avaliar a demanda reprimida de vôos no litoral paulista nem tinha informações sobre o potencial econômico da região. O último dado disponível era da década de 80 -material desatualizado, segundo o próprio secretário.
Especialistas ouvidos pela Folha afirmam que, antes de investir na reforma, o governo deveria ter feito um estudo de demanda que apontasse a relação custo-benefício da obra (leia na pág. C3).
Hoje, de cada dez aeronaves que chegam ao município, seis são helicópteros e quatro, aviões de pequeno porte. E nenhum Boeing jamais pousou no município, para tristeza do administrador regional do aeroporto, José Antonio da Fonseca.
"Aqui só vem aviãozinho que puxa faixa na praia com anúncio publicitário e helicóptero do pessoal que faz prospecção de petróleo na bacia de Santos", afirma, com o olhar perdido nos 7.000 m2 do pátio das aeronaves, de onde se vê, ao longe, a serra do Mar.


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