São Paulo, segunda-feira, 07 de julho de 2008

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32% das cidades encolheram em 8 anos

Entre os anos de 2000 e 2007, enquanto a população brasileira cresceu, 1.747 municípios brasileiros perderam gente

É o caso de, principalmente, cidades pequenas, que cederam habitantes para regiões metropolitanas ou localidades de médio porte


Duda Pinto/Folha Imagem
O frigorífico Armour, que, fundado por ingleses em bairro que levou seu nome em Santana do Livramento (RS), fechou em 1999

ANTÔNIO GOIS
DA SUCURSAL DO RIO

Na contramão de um país que ainda cresce, 1.747 municípios brasileiros (32% do total) perderam população de 2000 a 2007. São, principalmente, cidades pequenas -com menos de 10 mil moradores-, que cederam habitantes para regiões metropolitanas ou localidades de médio porte mais industrializadas e com mais ofertas de emprego ou estudo.
Além dessas cidades que encolheram, outras 1.799 (33% do total) registraram no período crescimento meramente vegetativo, inferior a 1% ao ano. Isso indica que elas também têm saldo migratório negativo (cedem mais população do que ganham), mas ainda crescem porque o número de nascimentos supera o de mortes e compensa a perda por emigração.
As comparações são feitas utilizando o Censo Demográfico de 2000 e a Contagem da População de 2007, realizados pelo IBGE. Os Estados onde há maior proporção de municípios que estão encolhendo são os da região Sul, especialmente Rio Grande do Sul e Paraná.
Apesar de o fenômeno ser mais intenso no Sul, um mapa feito pelo IBGE que identifica todos os municípios brasileiros pela taxa de crescimento ou diminuição mostra que há regiões em vários Estados que estão perdendo população.
Isso acontece no sul da Bahia, no Vale do Ribeira (sul de São Paulo e norte do Paraná), no oeste de Goiás e até em algumas regiões do Norte do país -onde o crescimento demográfico é mais intenso.

Filhos
No caso da região Sul, onde a proporção de municípios que encolhem é maior, o coordenador de População e Indicadores Sociais do IBGE, Luiz Antônio Pinto de Oliveira, destaca que o enfraquecimento da agricultura familiar e o crescimento da agroindústria e da industrialização são os fatores que levam essas áreas a perder população.
"Nas pequenas propriedades, as famílias já não seguram os filhos em suas terras. Eles migram para regiões metropolitanas ou pólos regionais industriais em busca de melhores ofertas de emprego e de mais acesso a serviços de saúde e educação", diz Oliveira.
Ricardo Cardoso, estatístico do IBGE, lembra também que o processo de mecanização da colheita tem contribuído para diminuir a oferta de empregos em áreas cuja economia é basicamente agrícola.
Além do impacto econômico negativo por causa da perda da mão-de-obra, esses municípios que encolhem acabam também perdendo recursos de transferências governamentais, já que várias fontes de financiamento, especialmente o Fundo de Participação dos Municípios, levam em conta o número de habitantes para definir quanto cada prefeitura receberá.

Real valorizado
No Rio Grande do Sul, o economista José Antônio Alonso, da Fundação de Economia e Estatística (órgão do governo gaúcho), diz que, além da crise das pequenas e médias propriedades agrícolas, nos últimos anos tem contribuído para o esvaziamento populacional em várias cidades a valorização do real, já que os produtos dos países vizinhos acabam ficando muito mais baratos, o que desestimula a indústria.
"Em algumas cidades na divisa com o Uruguai e a Argentina, o comércio é a única atividade que restou depois que as indústrias desapareceram", afirma.
O economista aponta também que, no caso da região sul do Estado, contribui para o esvaziamento populacional o fato de a agricultura ser dependente de poucos produtos.
"É uma região quase de monocultura. No passado, dependia apenas de gado e de lã. Depois, a lã foi perdendo a força e dando lugar ao arroz. Essa área tem recebido alguns investimentos, mas eles são de longa maturação e, no curto prazo, acredito que ainda serão insuficientes para alavancar a região", diz Alonso.


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