São Paulo, quinta-feira, 20 de abril de 2006

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JUSTIÇA

Acusado de matar pai e madrasta, ele se diz inocente; família dela afirma que está "amedrontada" com a soltura

Gil Rugai é libertado após 2 anos de prisão

ANDRÉ CARAMANTE
GILMAR PENTEADO
DA REPORTAGEM LOCAL

O estudante Gil Rugai, acusado de matar o pai, Luiz Rugai, e a madrasta, Alessandra Troitino, em março de 2004, deixou a cadeia na noite de ontem, depois de dois anos preso. Sem barba, de camisa branca, ao lado de três advogados, ele saiu do CDP (Centro de Detenção Provisória) de Pinheiros, zona oeste de São Paulo, sem falar com os repórteres.
A família de Alessandra afirmou, por meio de seu advogado, que está "indignada" e "amedrontada" com a libertação do estudante. Parentes de Alessandra e de Luiz Rugai disputam na Justiça a partilha dos bens.
O estudante foi libertado pelo STF (Supremo Tribunal Federal), que considerou que a prisão preventiva (até o julgamento) não poderia se prolongar por tanto tempo. Ainda não foi marcada a data do julgamento do estudante, que nega o crime e aponta falhas na investigação.
A saída de Rugai da prisão teve um tratamento diferenciado pelo presídio, segundo a própria Secretaria da Administração Penitenciária. Fernando José da Costa, advogado do estudante, teve permissão para entrar com o seu veículo na área de segurança da unidade, o que é vetado para os demais detentos.
O estudante entrou no carro e saiu pelo portão, evitando o acesso dos repórteres. Cinco minutos antes, três presos também recém-libertos deixaram a unidade a pé. Segundo a secretaria, o advogado teve autorização para entrar na área de segurança para "proteger o preso do sensacionalismo de parte da imprensa".
Antes de retirar seu cliente do presídio, o advogado disse que o estudante foi orientado a não falar sobre o caso. "Se o Tribunal de Justiça decidir pelo júri popular, é lá que ele vai falar." A defesa entrou com um recurso contra a "sentença de pronúncia" (que confirma o júri popular), parando o processo. O advogado disse que ainda tentará anular a ação criminal. "Há dois anos, Gil Rugai foi considerado culpado pelo Ministério Público e pelas autoridades policiais quando nem 5% das testemunhas tinham sido ouvidas e nenhuma das dezenas de perícias havia sido concluída."
Segundo Costa, que pediu segredo de Justiça no processo, Rugai vai sair de São Paulo, para evitar o assédio, e tem planos de escrever um livro. Na prisão, ele deu aulas de catequese e alfabetização. Era conhecida como uma pessoa extremamente calma. Ontem, amigos fizeram uma celebração religiosa antes de sua saída.

Medo
Dircêo Torrecillas Ramos, advogado da família de Alessandra e assistente de acusação do Ministério Público, disse que pais e irmãos de Alessandra estão amedrontados com a libertação, principalmente pelas ações de disputa pelos bens de Luiz e Alessandra -casa, carros, um avião, um barco, equipamentos de uma empresa de publicidade e dinheiro.
Em uma das ações, Léo Rugai -irmão mais novo de Gil- aparece como inventariante em uma ação sobre os bens de Luiz Rugai. Em outra, a família de Alessandra reivindica 50% dos bens. "Se ele [Gil Rugai] fez tudo isso por interesse nos bens, preocupa saber que ele está livre no momento em que a família dela também reivindica o que lhe é de direito", disse.
A promotora Mildred Gonzales também afirmou que a liberdade do estudante coloca em risco a vida da principal testemunha do caso. O vigia de rua Domingos Ramos Oliveira Andrade, que afirmou à polícia ter visto o estudante sair da casa do pai logo após os disparos, está no Provita (Programa de Proteção a Vítimas e a Testemunhas Ameaçadas) desde o crime, ocorrido em 2004.
"É a inversão dos valores. Mais vale a liberdade de um bandido do que a liberdade de uma testemunha que contribuiu com a Justiça", afirmou Mildred. Dias depois do crime, a guarita na qual o vigia trabalhava foi incendiada. Palavras de ameaça também foram escritas em um muro. A partir daí, o vigia, a mulher e três filhos foram incluídos no Provita.
"A alta corte [o STF] está distante da criminalidade que assola o país", afirmou a promotora. Ela afirma que o Ministério Público ficou com as "mãos atadas". "Não podemos fazer nada, a não ser que ocorra algum fato novo."


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