São Paulo, quarta-feira, 03 de outubro de 2007

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VINICIUS TORRES FREIRE

A tal da bolha


Bovespa está inflando? Por ora se sabe só que dinheiro grosso crê em juro menor nos EUA e na saúde "emergente"

A CONFIANÇA do consumidor caiu? As Bolsas americanas sobem. Os maiores bancos de Wall Street e contraparentes europeus perderam bilhões com derivativos de crédito ruim ou avacalhado e anunciam milhares de demissões? Suas ações sobem. Um dia após outro, com também ontem, saem notícias horríveis sobre o nível de comércio e de construção de casas nos EUA. Mas até ações de empreiteiras de residências subiram.
Da perspectiva brasileira, o mercado de ações americano parece até extravagante, mesmo com a Bovespa galopando para os picos de 65 mil pontos -e apesar de grandes empresas americanas ainda marcarem bons resultados, com exceção de bancos, no terceiro trimestre, montadoras, negócios imobiliários residenciais e de previsões de lucros menores no grande varejo.
Ao menos, por aqui, o PIB deve crescer duas vezes mais rápido que o de Estados Unidos e eurolândia, uma raridade no último quarto de século. Os juros reais caíram ao menor nível desse mesmo quarto de século, o que reduz risco e custo de investir em ações. Empresas que vitaminam a Bovespa, Vale e Petrobras, vão muito bem. Mas fundamentos e convenções não explicam as Bolsas, ao menos no curto prazo, se é que algo as explica, em qualquer prazo.
Bolhas? Ninguém se entende sobre como avistá-las ou quando e como se formam. Nem quanto duram. Em dezembro de 1996, Alan Greenspan, o ex-presidente do Fed, começou a ficar "pop" quando disse que o mercado vivia uma "exuberância irracional". As Bolsas derreteriam apenas no começo de 2000.
Risco de recessão iminente afeta as ações? Não, a Bolsa dos EUA já subiu até às vésperas de contrações do PIB -recessões que só ficariam caracterizadas meses depois.
Por que a festa no mercado? Primeiro, os investidores globais avaliam que o talho de juros do Fed feriu de morte a crise de crédito de julho-agosto, embora o crédito ainda ande apertado. De resto, quase sempre há festa nas ações quando o Fed subitamente injeta dinheiro em mercados em crise aguda.
Segundo, apostam que devem vir mais cortes de juros até o final do ano (o que não é certo. E se o Fed decidir que, amainado o aperto de crédito, vai deixar os juros como estão para ver como é que ficam PIB e inflação nos EUA? E se o dólar degringolar e inflar os preços?).
Terceiro, acredita-se em "descolamento", que os "emergentes" vão segurar o crescimento mundial mesmo diante de tropeços americanos -portanto, compram ações e investem em negócios "emergentes", como o Brasil, com o que também fogem de ativos em dólar, moeda que se desvaloriza. O índice de ações emergentes MSCI, do Morgan Stanley, subiu uns 50% em 12 meses.
Tudo isso pode durar um mês de euforia, anos de "exuberância irracional", como a de Greenspan, ou, veremos no futuro, até exuberância racional. Faz mais de década que a economia americana recebe o impulso de bolhas e de excessos, como as de ações pontocom ou a imobiliária; como os déficits externo (os americanos gastam demais) ou fiscal (o governo dos EUA gasta demais, como em guerras), financiados por japoneses e, agora, chineses. Tudo muito heterodoxo. E incerto.

vinit@uol.com.br


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