São Paulo, sexta-feira, 12 de agosto de 2005

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LUÍS NASSIF

Os caminhos para o álcool

Há uma grande notícia e um grande problema envolvendo a agricultura brasileira. A notícia é que, em alguns anos, o Brasil será o maior exportador agrícola do mundo e terá papel-chave na produção de combustíveis renováveis. Além disso, dentro de pouco tempo, passará a comandar os mercados de algodão e frutas tropicais, além de soja, açúcar, frango, suínos e café.
O problema será como financiar essa expansão -algo que será facílimo assim que as taxas de juros internas convergirem para patamares civilizados.
O desafio estratégico é dos maiores da história do país. As previsões apontam para o esgotamento das fontes fósseis de energia nos próximos 40 anos. Ainda não foram viabilizadas fontes alternativas. Mesmo se se viabilizarem, o motor a combustão ainda dominará o cenário nesse período. Por isso mesmo, a energia será o novo paradigma para a agricultura do século 21, criando uma janela inédita de oportunidade para o álcool brasileiro. Já há tecnologia, preço, cadeia produtiva trabalhando de forma integrada. E a própria indústria do petróleo percebe que o etanol será a maneira de dar sobrevida ao seu próprio negócio.
Embora teoricamente todo país possa produzir energia renovável, a tendência natural será convergir para países tropicais em desenvolvimento, que têm sol e disponibilidade de terra, constata o ministro da Agricultura, Roberto Rodrigues.
Hoje em dia, o Brasil consome 14 milhões de litros de etanol para a frota de automóveis bicombustíveis -750 mil veículos produzidos em pouco tempo. De maio para cá, a venda desse tipo de carro superou a dos veículos convencionais. Estima-se em 2013 uma frota de 8 milhões de veículos bicombustíveis. Só para atender o mercado interno, haverá a demanda de mais 1,8 milhão de hectares, além do 1,3 milhão atual.
Há um conjunto de desafios para consolidar o programa. O primeiro é transformar o etanol em commodity, com parâmetros definidos internacionalmente -elemento fundamental para a criação de um mercado internacional. O segundo desafio será acelerar os avanços tecnológicos. Foram criados um pólo de agroenergia na Embrapa e um consórcio envolvendo faculdades de agronomia. O terceiro será o financiamento. O custo de um hectare de cana plantada é de US$ 1.000. Para atender a demanda, serão necessários US$ 3 bilhões.

Pecuária
As razões por que a pecuária brasileira se livrou da grande crise de inadimplência do início do Plano Real foram reveladas ontem pelo vice-presidente de Agronegócios do Banco do Brasil, Ricardo Conceição.
Em pleno Plano Cruzado, ocorreu o famoso episódio de caçar bois no pasto, ordenado pelo então ministro da Fazenda, Dilson Funaro. Os pecuaristas se recusavam a vender carne aos preços de tabela. Funaro ordenou a Conceição que mandasse um fax ao Banco Central, cortando todo o crédito ao setor.
Cortou-se, acabou o plano, passaram os anos e se esqueceu de revogar a proibição. Só uns três ou quatro anos atrás se percebeu o cochilo. Graças a ele, a pecuária brasileira logrou um salto sem precedentes.

E-mail - Luisnassif@uol.com.br


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