São Paulo, quinta-feira, 29 de novembro de 2007

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Gasto de turista no exterior é o mais alto já registrado

Real valorizado traz impactos às contas externas; país tem em outubro o 2º déficit no ano

Remessas de lucros pelas empresas atingem US$ 16 bi em dez meses, resultado 28% maior que o do mesmo período do ano passado

DA SUCURSAL DE BRASÍLIA

Os gastos de turistas brasileiros no exterior bateram recorde no mês passado, segundo dados do Banco Central. Impulsionadas pelo real valorizado, essas despesas somaram US$ 915 milhões em outubro, o maior valor já registrado em um único mês desde 1947, quando começa a série estatística do BC.
Nos primeiros dez meses do ano, esse item já respondeu pela saída de US$ 6,619 bilhões do país, crescimento de 38,8% em relação a 2006.
Esses números indicam que a valorização do real já começa a ter impactos mais significativos nas contas externas do Brasil. Além dos maiores gastos com viagens, também se nota um aumento das importações e nas remessas de lucros ao exterior, o que levou o país a registrar o segundo déficit externo deste ano.
No mês passado, o saldo da conta de transações correntes -que contabiliza a negociação de bens e serviços com outros países- ficou negativo em US$ 42 milhões. O déficit foi pequeno, mas ajudou a reduzir o superávit acumulado no ano para US$ 5,597 bilhões, metade do valor apurado no mesmo período de 2006.
As remessas de lucros para o exterior somaram US$ 2,201 bilhões só no mês passado. No ano, o saldo acumulado é de US$ 15,984 bilhões, 27,8% a mais do que no ano passado.
"Essas remessas são o principal componente negativo do desempenho das transações correntes", diz o chefe do Departamento Econômico do Banco Central, Altamir Lopes.
As importações, por sua vez, chegaram a US$ 12,330 bilhões no mês passado, valor 41% maior do que o registrado em outubro de 2006. No mesmo período, as exportações cresceram 24,3%, atingindo US$ 15,769 bilhões.
Apesar desse aumento na saída de dólares para o exterior, o economista Caio Megale, sócio da Mauá Investimentos, identifica pontos positivos nos números apresentados pelo BC. "O aumento nas importações é um sinal de que o Brasil está fazendo uso da boa tecnologia desenvolvida por outros países. E as remessas de lucros estão aumentando porque as empresas multinacionais, assim como as outras que atuam no Brasil, estão lucrando mais."
A redução no superávit das contas externas, por sua vez, não é vista como preocupante por Megale, pois o país já aproveitou os resultados positivos dos últimos anos para reforçar suas reservas em moeda estrangeira e, assim, reduzir a vulnerabilidade da economia a choques externos. "É como o conto da cigarra e da formiga. O Brasil fez como a formiga e aproveitou a situação favorável para fazer caixa", compara. As reservas internacionais do país estão hoje no nível recorde de US$ 177 bilhões.
Para Fabio Kanczuk, professor de economia da USP, a redução no saldo em transações correntes ocorrida neste ano marca o início da reversão do quadro observado desde 2003, quando o país começou a acumular superávit nas contas externas. Entre 1947 e 2002, o Brasil só havia registrado saldo positivo nesse indicador em sete ocasiões.
Mas Kanczuk diz que ainda é cedo para dizer qual será o impacto desse movimento na economia, já que muitos outros fatores podem alterar esse quadro, como o nível de crescimento da economia mundial e o comportamento dos preços das commodities -produtos primários, como a soja e o minério de ferro- no mercado internacional. "Ainda tem muito jogo para acontecer", afirma.


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