São Paulo, quinta-feira, 25 de outubro de 2007
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Rosely Sayão

Envelhecimento invisível

Semanas atrás, um garoto com idade em torno dos seis anos fez uma pergunta que expressou a leitura que ele faz sobre o envelhecimento. Ele chegou até mim e perguntou: "Você é bisavó de quem aqui da sala?"
Eu estava na escola que ele freqüenta participando, como observadora, das atividades de sua turma. Perguntei por que ele achava que eu era bisavó de algum colega, e ele respondeu, sem hesitar: "Só bisavós têm cabelos brancos".
Deixei de colorir meus cabelos há mais ou menos um ano.
Foi uma decisão que tomei ao perceber que tingia meus cabelos automaticamente, sem pensar, sem escolher. Por isso, decidi deixá-los na cor natural -grisalhos- para, depois de experimentar, fazer minha escolha. E, devo dizer, tem sido bem difícil ter cabelos brancos nesta época.
Esse sinal tão visível do envelhecimento progressivo e inexorável incomoda: são poucos os adultos que não me interpelam a respeito. "Você tem alergia a tinta?", "parabéns, você é uma pessoa muito corajosa!", "você é bem ousada" ou "você implantou marca-passo?" são algumas das frases que tenho de enfrentar com muita freqüência. O que elas revelam?
Que os sinais do envelhecimento precisam ser ocultados e, quando não o são, é preciso ter um motivo muito importante para tal.
De minha parte, gostaria imensamente que meus cabelos brancos expressassem apenas o que, de fato, são: os sinais de minha herança genética e do envelhecimento. Mas, nos dias atuais, isso parece ser uma missão impossível.
E a pergunta do garoto, o que pode revelar? Em primeiro lugar, que temos ofertado aos mais novos uma visão de mundo em que o envelhecimento é tão desmoralizado que precisou ser banido de cena. Para o garoto, todos os adultos são jovens. Só são velhos os muito velhos, como os que se tornaram bisavôs e bisavós, e essa passagem acontece repentinamente. Aliás, a ocorrência desse fenômeno tem sido bem mais comum, já que a expectativa de vida aumentou consideravelmente nas últimas décadas.
Conviver com a quarta geração já não é uma dádiva para poucos, e sim uma possibilidade real para muitos.
A eliminação das evidências aparentes do envelhecimento gradual, com o uso de todo o arsenal produzido para tanto, pode transmitir a falsa idéia aos mais novos de que podemos manipular e controlar o passar do tempo ou de que a juventude é eterna. Essa concepção certamente afeta, de alguma maneira, o desenvolvimento deles. Já não temos constatado um prolongamento da adolescência e da juventude, um pouco caso com os cuidados com a saúde e com a vida por parte dos jovens e, do mesmo modo, uma falta de respeito geral em relação aos velhos? E tudo isso ocorre, entre outros motivos, porque são poucos os que não deixam de considerar como certo o fato de que eles mesmos irão envelhecer.
É: o fato de o processo natural e inevitável do envelhecimento ter se tornado um fenômeno invisível não afeta apenas os adultos que já o enfrentam; afeta também, e principalmente, os mais novos. Afinal, que mundo é esse que apresentamos aos que nos sucederão?


ROSELY SAYÃO é psicóloga e autora de "Como Educar Meu Filho?" (ed. Publifolha)

roselysayao@folhasp.com.br

blogdaroselysayao.blog.uol.com.br


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