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São Paulo, terça-feira, 30 de setembro de 2003

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O BRASIL DO SÉCULO 20

Segundo o IBGE, o 1% dos mais endinheirados ganha o mesmo que os 50% mais pobres

País fica mais rico e mais desigual

ANTÔNIO GOIS
FERNANDA DA ESCÓSSIA
DA SUCURSAL DO RIO

O século 20 foi aquele em que o Brasil aumentou sua riqueza, mas não a dividiu. Em cem anos, a riqueza total cresceu quase 12 vezes em relação à população; no entanto, a distribuição de renda piorou na segunda metade do século.
Em 1960, ano marcado pela inauguração de Brasília pelo então presidente Juscelino Kubitschek, o rendimento recebido pelos 10% mais ricos era 34 vezes o obtido pelos 10% mais pobres; em 1991, a diferença chegou a 60 vezes e, em 2001, os 10% mais ricos ganhavam 47 vezes o recebido pelos 10% mais pobres.
A concentração de renda é tão grande que, na virada do século 20 para o 21, o 1% mais rico dos brasileiros ganhava praticamente o mesmo que os 50% mais pobres.
Mesmo com o país mais rico, a estagnação econômica a partir dos anos 80 fez o rendimento real cair cerca de 7,5% em 20 anos. De 1977 a 1999, o número absoluto de pobres aumentou de 40,7 milhões para 53,11 milhões. Houve queda, porém, da parcela que eles representam (de 39,6% para 34,09%).
O Brasil que encerrou o século 20 era um país mais velho, mais urbano, mais feminino, mais alfabetizado, mais industrializado. A desigualdade é a marca nacional, seja desigualdade de renda, racial, de gênero ou regional.
É o que mostram as "Estatísticas do Século XX", publicação lançada ontem pelo IBGE (Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística) com um resumo do Brasil no século que passou.
De 1901 a 2000, o PIB (Produto Interno Bruto, a soma das riquezas do país) mais do que centuplicou, subindo de R$ 9,1 bilhões para R$ 1 trilhão. No mesmo período, a população cresceu quase dez vezes, de 17,4 milhões para 169,8 milhões de habitantes.
O PIB per capita -hipotética divisão do PIB pela população- cresceu 12 vezes, de R$ 516 em 1901 para R$ 6.056 em 2000.

Concentração
Apesar do enriquecimento, a renda ficou mais concentrada a partir de 1960 (quando estão disponíveis os primeiros dados sobre o tema). Em 1999, o 1% mais rico da população em idade ativa e com rendimento concentrava 13% da renda -quase o mesmo que os 50% mais pobres, 13,9%.
O índice de Gini, que mede a concentração de renda, cresceu de 0,50 em 1960 para 0,63 em 1991. Na década de 90, sofreu uma pequena queda, chegando a 0,59 em 1999. Usado mundialmente para expressar a concentração de renda, o índice varia de 0 a 1. Quanto mais próximo de 0, melhor é a distribuição. Quando mais perto de 1, mais concentrada.
"O Brasil teve um crescimento fantástico, mas não aprendeu a dividir a riqueza. O crescimento econômico, comparável ao de poucos países nesse século, levou a uma evolução sem resolução de uma série de problemas, que seguem agora para o século 21", afirma o presidente do IBGE, Eduardo Pereira Nunes.
De acordo com o relatório de 2003 do Pnud (Programa das Nações Unidas para o Desenvolvimento), o Brasil encerrou o século 20 com a sexta pior distribuição de renda do mundo, perdendo apenas para Namíbia, Botsuana, Serra Leoa, República Centro-Africana e Suazilândia.
O índice é 0,519 no México, 0,408 nos EUA e 0,378 na Índia. O mais baixo é o da Hungria, 0,244. Nos EUA, a concentração de renda subiu a partir de 1979, e há hoje no país 34,6 milhões de pobres, 12,1% da população.
Segundo o assessor de desenvolvimento sustentável do Pnud, José Carlos Libânio, a América Latina tem os maiores níveis de desigualdade do mundo, e o Brasil, na América Latina, é o mais desigual. Para ele, é difícil dizer se o país é hoje mais ou menos desigual do que no início do século, porque desigualdade não é só renda. O acesso à educação, por exemplo, melhorou.
"Houve riqueza, mas, enquanto o bem-estar não for dividido, vai persistir esse quadro de desigualdades e o que ele acarreta de instabilidade. A desigualdade alimenta a pobreza", afirmou.

2 lugar em crescimento
Um estudo do Iedi (Instituto de Estudos sobre Desenvolvimento Industrial) mostra que, em todo o século 20, o Brasil ficou em segundo lugar entre os países que mais cresceram no mundo -uma média de 4,5% ao ano, igual à da Coréia do Sul e só superada pela de Taiwan (5%). De 1900 a 1973, o Brasil foi o país que mais cresceu no mundo -média de 4,9% ao ano. Já nas décadas de 80 e 90, época de estagnação econômica, o crescimento médio foi de apenas 2,4% ao ano.
Na avaliação do analista Nelson Carneiro, da consultoria Global Invest, o crescimento brasileiro não se traduziu em diminuição da desigualdade porque, nas bases em que foi feito, era necessário concentrar a renda.
"O crescimento foi impulsionado por indústrias que vendiam produtos de maior valor agregado, como a automobilística ou a de construção civil. Para vendê-los, era necessária uma classe com alto poder aquisitivo. Por isso tivemos muita industrialização, mas pouca gente consumindo."
A crise da dívida externa nos anos 80 também reduziu o rendimento do brasileiro: de 1981 a 1999, a renda média do trabalhador perdeu 7,5% de seu valor, caindo de R$ 485,53 para R$ 449.
Nas seis principais regiões metropolitanas do país, o rendimento médio real corrigido caiu 18,5% de maio de 1983 a dezembro de 2000. O salário mínimo no Rio e em São Paulo perdeu cerca de 50% do poder de compra entre o valor mais alto (de 1958 a 1960) e os do final do século.
O IBGE não dispõe de uma série unificada desde o início do século com rendimentos, daí a dificuldade de comparar a renda durante cem anos. O salário mínimo era regional até 1984, quando foi unificado nacionalmente.


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