São Paulo, domingo, 12 de maio de 2002

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COPA 2002
Clássico da literatura militar inspira seleção brasileira de Scolari em preparação que começa hoje
"A Arte da Guerra" será o manual na Copa

FÁBIO VICTOR
DA REPORTAGEM LOCAL

FERNANDO MELLO
JOSÉ ALBERTO BOMBIG

DO PAINEL FC

Um pequeno livro, com 111 páginas numa edição de tamanho normal e 141 no formato de bolso, escrito há cerca de 2.500 anos, no século 6 antes de Cristo, é o principal guia da seleção brasileira para enfrentar a Copa do Mundo.
Trechos de "A Arte da Guerra", do chinês Sun Tzu, um filósofo que se tornou general no reino Wu, estarão espalhados pelos quartos dos jogadores nas concentrações do time nacional na preparação para o Mundial.
O mentor da estratégia é Luiz Felipe Scolari, entusiasta de técnicas de motivação e psicologia esportiva, supersticioso notório e admirador confesso do ex-ditador chileno Augusto Pinochet.
A revelação foi feita por Scolari em entrevista exclusiva à Folha, na última quinta-feira, em dois momentos distintos: no início de uma visita à Redação do jornal e dentro de um carro rumo ao aeroporto de Congonhas, onde tomou um vôo para Porto Alegre.
"A Arte da Guerra" prega basicamente que uma vitória militar depende mais de aspectos morais e intelectuais dos oficiais e das circunstâncias da batalha do que do poderio dos Exércitos.
Um dos maiores clássicos da literatura de guerra, o livro teria servido de inspiração para Napoleão e foi manual para Mao Tsé-tung e para os exércitos chinês e russo ao longo da história.
Na entrevista, Scolari falou ainda de Romário, Ronaldo, Rivaldo e de como conduzirá seu exército na busca pelo pentacampeonato.


Folha - Você é um grande adepto da motivação e da psicologia. Como vai estimular seus atletas?
Luiz Felipe Scolari
- Tenho a idéia de quase individualizar, ou seja, vou ter tempo de sentar com os atletas, com um no canto e conversar, com outro no treino.

Folha - E filmes, palestras?
Scolari -
Pode ser que um ou outro filme a gente leve junto. Palestra eu não vou fazer, não. Porque eu tenho uma idéia geral, que me foi passada pela Regina Brandão [psicóloga com quem o técnico trabalhou", e vou trabalhar em cima dela. Mas não vou trabalhar com ninguém específico, até porque Coréia e Japão são longe pra caramba para solicitar alguém.
Dependendo do que eu enxergar no meu grupo e das pessoas que estiverem lá, pode ser que eu solicite uma ou outra ajuda.

Folha - Você vai estimular a leitura na concentração?
Scolari -
Vou levar alguns livros de motivação...

Folha - Quais livros?
Scolari -
A "Arte da Guerra" é um livro. Vou tentar passar para eles algumas coisas que eu leio ali, através do Rodrigo [Paiva, assessor de imprensa da CBF", que vai bater no computador, ou do Guilherme [Ribeiro, administrador da CBF", e fixar nos quartos. Vou levar os meus livros de motivação, um ou dois, que eu não vou ter muito tempo, não. Vou levar minhas revistas normais, porque ali tem umas frases para determinados momentos.

Folha - A revista "Seleções", por exemplo, da qual você é um leitor contumaz...
Scolari -
"Seleções" eu levo sempre, inclusive, quando as "Seleções" chegarem aqui, eles vão me mandar para lá. Porque eles sabem que eu leio, o Acaz [Felleger, seu assessor particular" vai mandar, a minha esposa vai mandar porque isso aí faz parte já. E uma ou outra coisa que eu já tenha preparado que eu vou levar, específicas para determinados momentos da competição.

Folha - No que depender de você, o Brasil pode jogar de azul, como na Copa América [contra o Peru"?
Scolari -
Se der para usar, tomara. Uma vez pelo menos. Não te esqueces de que azul faz parte da minha vida. Azul do Grêmio, da seleção...

Folha - Mas na Copa América não deu tão certo?
Scolari -
Como não deu? Ganhamos o jogo contra o Peru. Só quero o momento. Não faço aquilo para dali a dez jogos. Se no momento servir, atingir o objetivo, ótimo. Mas quem define isso não sou eu, é a Fifa.

Folha - Pelo menos em Ulsan, os jogadores vão ficar em quartos individuais. O que acha disso?
Scolari -
Isso não sou eu quem resolvo, é o Américo [Faria, administrador da CBF". Se fosse para eu opinar e escolher, e tivesse local, eu escolheria cada um no seu quarto.

Folha - Por quê?
Scolari -
Porque, depois de 20 dias, se tu me olhares atravessado, eu te mando para o inferno. Eu sei que, depois de muito tempo, se um cara vai escovar os dentes e faz assim no outro [faz gesto simulando atirar pasta no colega", o outro: "Pô, que bicho porco". É assim, vocês sabem que é assim.

Folha - E contato de empresário com jogadores na Copa, você vai proibir?
Scolari -
Não vou proibir nada. Tem as normas de conduta da CBF. Como é que tu não vais falar, se tu tens celular [haverá horários liberados para uso do aparelho"?

Folha - Se o empresário ligar para o jogador para falar do interesse de um clube no horário liberado para celular, o jogador vai poder falar?
Scolari -
Como é que tu vais saber se ele falou ou não? Vou grampear o telefone?

Folha - Mas empresários poderão circular pelo lobby do hotel?
Scolari -
Qualquer pessoa pode circular, porque somos em 40, 50 pessoas nos dois andares, e o resto do hotel está aberto. Como é que tu vais dizer que não pode circular? Isso não existe, é bobagem.

Folha - E internet nos quartos, os jogadores vão poder usar?
Scolari -
Não. Provavelmente dentro dos quartos não tenha. Tem seis computadores em cada andar. Pode ser que o pessoal leve laptop, mas vai ter horário.



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