São Paulo, terça-feira, 15 de dezembro de 2009

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Cor da pele inflama escândalo Tiger Woods

Astro do golfe, que se vê "cablinasiano", realimenta discussão racial nos EUA

Última novela sexual do esporte americano atinge bolso do atleta mais bem pago do mundo após seu anúncio de afastamento

Streeter Lecka - 15.set.07/France Presse
CARREIRA AMEAÇADA
Em 2008, atleta faturou US$ 105 milhões só com patrocínio


SÉRGIO DÁVILA
DE WASHINGTON

Em 1997, durante entrevista à apresentadora de TV Oprah Winfrey, Tiger Woods se definiu como "cablinasian". O neologismo em inglês foi cunhado pelo próprio jogador de golfe e junta as palavras "caucasian" (caucasiano, ou branco), "black" (negro), "indian" (índio) e "asian" (asiático). Foi a palavra que ele se inventou na adolescência, disse, para resolver um problema: o que declarar no quesito "raça" ao preencher as fichas de competição.
No programa de TV, Woods definiu sua composição étnica como "25% negro, 25% tailandês, 25% chinês, 12,5% branco e 12,5% nativo-americano". Daí o "cablinasian", ou, aportuguesando, "cablinasiano".
Desde então, passou a viver numa espécie de limbo racial: os negros o rejeitaram, dizendo que ele tinha vergonha de ser um deles, e os outros acharam a história esquisita demais, como se Woods tivesse dito que era vulcano, como o sr. Spock, de "Jornada nas Estrelas".
A revelação recente de que ele teria tido pelo menos nove amantes -fala-se agora em 11- enquanto casado com sua atual mulher, uma sueca loira de olhos azuis, reavivou a discussão entre articulistas norte-americanos, numa polêmica que extrapolou as páginas e os programas dos cadernos de esporte dos jornais.
Um deles, Eugene Robinson, articulista negro do "Washington Post", escreveu que o incomodava particularmente o fato de que todas as supostas amantes terem um mesmo traço, que ele definiu como similares à boneca Barbie.
Foi o suficiente para que entidades feministas acusassem Robinson de sexista e entidades negras chamassem Woods de racista. "Por que é que quando eles [os homens negros] chegam a esse nível de sucesso, tendem a ir diretamente para a loira mais próxima?", perguntou-se Denene Millner, autora de livros sobre relações raciais.
Em comparação, quando o nadador Michael Phelps foi pego fumando maconha, para ficar em exemplo recente de outra estrela do esporte norte-americano envolvido em escândalo, a absorção do caso pela opinião pública foi mais simples. Ele assumiu o erro, pediu desculpa, e a vida continuou.
Os Estados Unidos não sabem exatamente o que fazer com seu "cablinasiano" mais rico e famoso.

Obama
Ajuda o fato de o componente racial ter adquirido relevância extraordinária no país desde a eleição do democrata Barack Obama, o filho de branca americana e negro africano criado por um padrasto indonésio que é ele próprio um Tiger Woods da política no quesito complexidade étnica.
A exceção são as empresas que o bancaram ao longo dos últimos anos. Essas sabem muito bem o que estão fazendo: abandonando o barco. A consultora Accenture anunciou que cancelou o contrato com o esportista, a Gatorade avisou que interromperia uma linha baseada em seu nome, a Gillette disse que reduzirá seus patrocínios e a operadora AT&T e a fabricante de relógios Tag Heuer afirmam estar "reavaliando" seu relacionamento publicitário com o esportista.
Aqui também o padrão parece ser duplo. Há poucos meses, depois de sofrer chantagem, David Letterman veio a público assumir diversos casos que teve com funcionárias de seu programa -e não perdeu um anunciante por isso até hoje.


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