São Paulo, sábado, 20 de novembro de 2004

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FUTEBOL

Iraniano da MSI depõe na PF sobre sua situação no país, e comerciante é acusado de tentar corromper conselheiro

Parceria corintiana vira caso de polícia

MÁRVIO DOS ANJOS
RICARDO PERRONE
DA REPORTAGEM LOCAL

O namoro entre o Corinthians e a MSI virou romance policial. Os novos capítulos da parceria se desenrolaram nos corredores da Polícia Federal e no 36 Distrito Policial, resultando num indiciamento por corrupção ativa.
Na manhã de ontem, o empresário Kia Joorabchian, da MSI, foi intimado a depor na Superintendência da Polícia Federal, sob denúncia de que não teria um visto para realizar negócios no país. Depôs e foi liberado em seguida, afirmando não haver problemas. A Polícia Federal não se manifestou sobre o depoimento.
À tarde, o comerciante e ex-vereador no Guarujá, Marcelo Squassoni, 35, foi indiciado por corrupção ativa, acusado de oferecer R$ 1 milhão ao conselheiro corintiano e deputado estadual Romeu Tuma Júnior, um dos principais opositores do negócio. Squassoni trabalhou com o irmão do deputado, Robson Tuma.
Segundo Tuma Júnior, Squassoni, que foi encaminhado ao 36 Distrito Policial e foi liberado após indiciamento, apresentou-se como emissário de Renato Duprat, braço direito do iraniano.
O deputado exibiu à imprensa trechos de conversa telefônica com pessoas que se identificaram como Duprat e Marcelo.
De acordo com o conselheiro, o primeiro contato foi feito anteontem. "Squassoni disse que eu poderia até votar contra a parceria, mas teria de parar de falar sobre o assunto. Em troca, me daria o dinheiro e talvez um cargo."
Segundo Tuma, Squassoni disse representar, além de Duprat e Joorabchian, o milionário russo Boris Berezovski, que é acusado de crimes como assassinato e lavagem de dinheiro.
O deputado pediu uma prova de que Duprat estava envolvido. Ontem, Tuma Júnior recebeu um telefonema de Squassoni, que passou a alguém que se identificou como o ex-dirigente santista.
"E o que eu combinar com o Marcelo, está combinado?", perguntou Tuma Júnior ao fim da conversa. A resposta foi "sim".
Depois, Squassoni foi ao gabinete do deputado. "Perguntei quanto ele me daria. Desconfiado, escreveu num papel R$ 1 milhão."
Policiais militares e o delegado Edson Pinto, lotado na assembléia, entraram na sala, apreenderam o papel e o encaminharam para o 36 DP. Marcos Manfrin, delegado do distrito, chegou a dizer que não autuara Squassoni em flagrante por não ter recebido as gravações, porém, no fim da tarde, Tuma Júnior levou os registros das conversas. Mesmo assim, o comerciante foi liberado.
Na próxima semana, Duprat deverá depor. Ele conta outra versão do caso, na qual foi o alvo da oferta feita por Squassoni.
"Ele prendeu o assessor do irmão dele? Quem conhecia o assessor, eu ou ele? Como o assessor dele foi ao Chico Audi, que é meu amigo? Ele quis tomar dinheiro e prendeu o cara para não levar fumo. Foi achaque puro", declarou.
Tuma Júnior riu da declaração de Duprat e disse que irá processá-lo por calúnia e difamação.
Pela primeira vez, Kia Joorabchian emitiu comunicado oficial da MSI, com papel timbrado e endereço em Londres, dizendo que Duprat não é diretor nem empregado da empresa, mas apenas um consultor independente que apresentou o grupo ao clube. O comunicado afirma que Duprat não está autorizado a falar pela MSI.
O presidente corintiano, Alberto Dualib, divulgou nota afirmando desconhecer o fato e negando vínculo do clube com o episódio.
Há mais mistérios. O Hospital São Luiz encaminhou à polícia resultado da sindicância interna que apura uma ameaça de morte a Tuma Júnior, que partiu do hospital. Lá trabalha o médico Jorge Kalil, conselheiro pró-MSI.
Ao sair ontem da Polícia Federal após seu depoimento, Joorabchian declarou que o que ocorrera ali tinha sido uma piada.
"Tenho sete anos e meio no mundo dos negócios e nunca houve queixa sobre mim. Isso só pode vir de gente que é contra o clube. Não vou desistir do Corinthians", afirmou ele, que confirmou contatos com o técnico do Santos, Vanderlei Luxemburgo. "Estamos falando com vários técnicos e vendo o que é melhor."
Tranqüilo, ele elogiou o atual técnico, Tite, e afirmou que a transação pelo argentino Tevez está "de 80% a 90% certa".


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