São Paulo, domingo, 24 de junho de 2007

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Pan, 70 anos depois, choca pioneiro

Ex-atleta que disputou competição que deu origem aos Jogos conviveu com Owens e testemunhou racismo nos EUA

Aos 93 anos, carioca recorda viagem de 15 dias de navio a Dallas e prêmio em dinheiro que fez tremer o dirigente que o recebeu em 1937

Ana Carolina Fernandes/Folha Imagem
Antônio Carvalho, único brasileiro remanescente dos que disputaram o torneio que deu origem ao Pan, exibe medalhas pela presença nos Jogos-37 e na Olimpíada-36

SÉRGIO RANGEL
DA SUCURSAL DO RIO

Ele realizou o sonho de conhecer os EUA, fez questão de sentir na pele branca o racismo norte-americano e ainda ganhou o maior cachê da sua carreira -cerca de US$ 4.000.
Estas são as principais lembranças de Antônio Damaso de Carvalho, 93, único ex-atleta brasileiro vivo que disputou os Jogos da Exposição Pan-Americana de Dallas, em 1937.
A competição foi a primeira a reunir países das três Américas em um evento esportivo.
O torneio é considerado por historiadores o embrião dos Jogos Pan-Americanos, que terão sua 15 edição disputada no Rio de Janeiro, entre os dias 13 e 29 do mês que vem.
""Não ganhei nada, porém jamais vou me esquecer daqueles dias. Foi uma beleza. Viajamos 15 dias de navio, mas tudo valeu a pena", lembra Damaso, que sagrou-se bicampeão sul-americano de atletismo em 1937 e 1939 nos 400 m.
Atleta do Vasco nos anos 30, o carioca foi um dos nove brasileiros selecionados para participar dos Jogos da Exposição.
""Quando escuto que vamos ter centenas de atletas competindo pelo nosso país no Pan, fico impressionado. Nunca pensei que aquele torneio pudesse se tornar uma coisa tão grande", disse Damaso.
Os Jogos do Rio serão disputados por mais de 5.500 atletas, representantes de 42 países e devem custar cerca de R$ 4 bilhões aos cofres públicos.
Embora a competição pioneira tenha sido organizada às pressas, o veterano ficou impressionado com a estrutura encontrada em Dallas.
""Chegar lá foi a realização de um dos meus sonhos. Eles eram muito organizados, tinham os melhores atletas. A nossa Vila era algo impensável para um atleta brasileiro naquela época", conta o ex-esportista, que morava debaixo da arquibancada do estádio do Vasco e não recebia salário.
No clube, Damaso tinha apenas direito a ""comida e roupa lavada". Naquela época, ele já não era um iniciante. Um ano antes, tinha disputado a Olimpíada de Berlim.
Mesmo deslumbrado com o país, o brasileiro declarou que ficou chocado ao testemunhar o racismo nos EUA durante os Jogos da Exposição.
""Nos ônibus e nos trens, víamos sempre cartazes dizendo que os assentos no final da condução eram para "os colored". Foi a maior estupidez que presenciei na vida. Como um país podia ter o Jesse Owens, um herói nacional, e rejeitar a raça dele?", conta o ex-atleta, de olhos azuis e pela branca.
Nos Jogos Olímpicos de Berlim, Owens ganhou quatro medalhas de ouro às vésperas da 2 Guerra Mundial, no auge do nazismo, e frustrou os planos de Adolf Hitler de usar o evento para comprovar a superioridade da raça ariana.
Para Damaso, a situação era tão absurda que toda a delegação brasileira fez questão de viajar no vagão dos negros em Dallas. "Na minha cabeça, não entendia aquela besteira, éramos uma equipe e andávamos todos juntos. Não podia deixar os meus companheiros de time em outro lugar apenas por causa da sua pele", lembrou o carioca, que se diz fã de Jesse Owens, seu vizinho de Vila Olímpica na Alemanha.
""Era uma pessoa acessível, e chegamos a treinar juntos algumas vezes. Ele não ter entrado na pista em Dallas foi uma pena", disse Damaso. O fenômeno norte-americano não disputou a competição em 37. Depois de Berlim, ele deixou de participar de competições amadoras.
Até hoje, Damaso guarda a medalha de participação no Jogos da Exposição de Dallas. Mesmo assim, ele sempre repete que a melhor lembrança do evento foi o cachê que recebeu dos norte-americanos por ter disputado a competição.
""Era muito dinheiro. O nosso tesoureiro ficou até com as mãos trêmulas ao contar as notas. Nunca tinha visto tanto dinheiro. Jamais vou esquecer aquela aventura", contou o bancário aposentado, que hoje mora com a mulher de 85 anos e mais de 20 gatos numa casa próxima da praia de Itaipu, no município de Niterói (a 13 km da capital fluminense).


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