São Paulo, segunda-feira, 06 de dezembro de 2010

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JOGO SEM FIM

GAME ON-LINE ESQUENTA DEBATE SOBRE O DESTINO DE JOVENS TRAFICANTES

TARSO ARAUJO
ENVIADO ESPECIAL AO RIO

Aconteceu, virou videogame. Foi assim com a cena mais emblemática dos confrontos que ocorreram no Rio: traficantes armados fugiam da Vila Cruzeiro por uma estrada de terra rumo ao Complexo do Alemão.
Em "Fuga da Vila Cruzeiro", uma mira é apontada para os traficantes. Cabe ao internauta atirar. Ou não.
O jogo virou febre na internet e teve mais de 200 mil "plays" em três dias.
"É uma incitação ao crime, ainda que figuradamente", avalia Paulo Sérgio Pinheiro, sociólogo da Comissão Interamericana de Direitos Humanos. "Matar esses bandidos não resolve nada."
Para José Junior, coordenador da ONG AfroReggae que tentou mediar a rendição de traficantes no Complexo, a maioria da população não acha que a saída seja a execução de criminosos.
"Recebi mais de 9.000 mensagens em celular e redes sociais e posso falar que 8.800 diziam que não deveria haver banho de sangue."
Neco Boullosa, diretor da empresa de games que criou o jogo, diz que a proposta não é incentivar a violência, mas a reflexão.
"Ali não tem um "mate dez para passar de fase". Assim, eu estaria me posicionando ideologicamente. E o jogo não tem fim, porque o problema não vai ser resolvido atirando. Você pode fazer uma carnificina que não vai adiantar nada", defende. "O jogo cumpriu seu papel de suscitar a discussão", diz.
A fuga de traficantes da Vila Cruzeiro pode ter produzido algo muito mais importante do que um jogo. Segundo o psicanalista e colunista da Folha Contardo Calligaris, "é cedo para dizer se a identificação dos jovens com os criminosos vai desaparecer nas comunidades cariocas. Mas, pelas reações que a gente viu, já houve alguma mudança nesse sentido".
Para José Junior, o tráfico de drogas, hoje em crise, já não tem mais tanto apelo entre a juventude.

JOGO DA REFLEXÃO
Se atirar não é a saída, o que fazer, então?
"Julgá-los e prendê-los", diz Siro Darlan, desembargador do Tribunal de Justiça do Rio. Ele lembra que muitos jovens estão no tráfico porque falta acesso à educação e ao trabalho lícito.
"Não estou passando a mão na cabeça de bandido. Mas é o momento de oferecer a essas pessoas outra oportunidade que não passe pela vingança coletiva."
Darlan defende que as pessoas que desejam se entregar recebam uma "anistia condicionada", caso tenham praticado apenas o comércio de drogas, mas não atos de violência. Em vez de serem presos, eles se comprometeriam a estudar ou a trabalhar.
ONGs como a Ibiss, dirigida pelo psiquiatra holandês Nanko von Buren, mantêm projetos para reabilitação de traficantes.
A maioria desses projetos começou com ex-traficantes visitando bocas de fumo para convencer garotos do tráfico a mudar de vida. Com o tempo, os próprios garotos passaram a procurar as ONGs.
Afinal, o tráfico não é uma "firma" tão boa, como mostrou estudo do Observatório das Favelas.
Os pesquisadores acompanharam 152 jovens traficantes por cinco meses. No final do período, 20% deles tinham mudado de lado. Outros 10% tinham morrido.
"Isso não é vida para ninguém", diz Rafael Mota, 22. Durante quase três anos, ele ganhou R$ 600 por mês para defender o então chefe da venda do crack na Vila Cruzeiro. Agora, trabalha com carteira assinada: recebe R$ 840 mensais como monitor da creche que o Ibiss mantém na comunidade.

POLÍTICAS PÚBLICAS
"Não existe política pública para receber os garotos que querem sair do tráfico", diz Jaílson de Souza, coordenador da ONG Observatório das Favelas. "É preciso lembrar que esses meninos não nasceram traficantes. Para tirá-los do crime, eles precisam ter acesso a outra fonte de renda."
Segundo especialistas, agora cada vez mais jovens devem fugir do tráfico, e não da polícia.
"O meu telefone não para," diz André, explicando que mais traficantes têm procurado emprego desde a semana passada.
José Junior não constatou esse aumento na demanda, mas garante: "Não importa de qual facção eles sejam, todo o mundo está com medo".
Será que a "temporada de caça" pode se transformar em um empurrão rumo à reabilitação?
"O trabalho de várias ONGs mostra que basta investir, acreditar e gerar possibilidades", diz Junior.


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