São Paulo, segunda-feira, 15 de junho de 2009

Texto Anterior | Próximo Texto | Índice

Belezas contidas

Em unidade feminina, usar maquiagem é privilégio a ser conquistado

DA REPORTAGEM LOCAL

Sofia*, 15, só usava roupa de marca. Saía à noite para se divertir todos os dias e arcava não só com seus próprios gastos, mas com os das amigas também.
O dinheiro, porém, não vinha do bolso de seus pais. Sofia comprava e vendia maconha e crack -razão pela qual foi detida em dezembro e está internada até hoje em uma das quatro unidades femininas da Fundação Casa, em São Paulo.
"Eu era um pouco egoísta", admite. "Minha família não tem muito dinheiro e eu queria tudo de mão beijada."
Hoje, a garota aceita a internação e diz que a lição que está aprendendo é necessária -o que não quer dizer que não sinta falta de casa. "A parte de que mais me lembro é de voltar da escola, tomar banho e assistir à TV com as minhas amigas. Mas não fico tão triste porque sei que isso vai voltar."
Nas unidades femininas, ter um comportamento exemplar não só abrevia o tempo de internação, mas é a senha para ter direito a badulaques também.
Foi por meio de sua boa conduta, inclusive, que Sofia conseguiu os dela.
"O que temos aqui que nos deixa feliz é só chinelo, brinco e maquiagem", enumera a garota, com cabelo tingido de loiro nas pontas, preso por prendedores coloridos, de lápis no olho e usando brincos.
Durante sua internação, já fez curso profissionalizante de manicure e de cabeleireira, mas quer mesmo é ser cantora. Quando questionada sobre o que mais a incomoda, não demora em responder: "Tem muita menina brigando, fazendo tempestade em copo d'água".

Aprendizagem
Patrícia*, 15, por outro lado, não gosta de brinco e tem alergia a maquiagem. No máximo, faz escova no cabelo, para acompanhar as amigas nos dias em que resolvem se empetecar.
Confessa que conta os dias para ter de volta sua liberdade. "É só ter paciência", desabafa. Enquanto aguarda, maneja linha e agulha. "Costuro para passar o tempo."
Vai assumir, também, a edição do jornal interno de sua unidade -publicação que mostra à reportagem com orgulho, no final da visita.
Patrícia está internada há oito meses por tráfico de drogas, mas nega ter culpa -"Caí aqui de "laranja'", diz. "Uma colega maior de idade pediu para eu assumir a culpa, para não ser presa. Eu tinha medo de que o problema aumentasse."
"Hoje, olho para trás e vejo que a questão é viver e aprender. Essas experiências abriram a minha mente e me mostraram que o mundo a gente tem que conquistar", diz. (DB)


*Todos os nomes foram trocados


Texto Anterior: A rotina dentro dos muros
Próximo Texto: Jovem internado dá aula de judô para crianças
Índice


Copyright Empresa Folha da Manhã S/A. Todos os direitos reservados. É proibida a reprodução do conteúdo desta página em qualquer meio de comunicação, eletrônico ou impresso, sem autorização escrita da Folhapress.