São Paulo, sexta-feira, 01 de outubro de 2004

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MÚSICA

Cantora inglesa, que alcançou êxito com regravações de clássicos do soul, lança primeiro disco de canções inéditas

Joss Stone, 17, mostra agora "alma própria"

LUCIANA COELHO
DE NOVA YORK

Corada, a menina loira em cima do palco segura o microfone com as duas mãos, olha para baixo, tira o cabelo dos olhos e ri encabulada. "Espero que vocês tenham gostado." Podia até ser parte da mise-en-scène, mas o fato é que a platéia estava ganha. Palmas e gritos encheram o salão do pequeno Irving Plaza, em Nova York. Era apenas a segunda música da noite. E ela tem apenas 17 anos recém-completados.
Quem vê a inglesa Joss Stone falando com tanta timidez com sua platéia, calça jeans e blusinha de alças que a fariam passar incólume numa sala de aula, jura que ela vai sair correndo dali após o show para escrever em sua agenda (ou blog) sobre como "foi legal aquela noite". Mas quem a ouve cantar, em seus momentos de maior inspiração, crê que ora se trate de uma diva negra da Motown dos anos 70, ora de uma Janis Joplin incipiente.
A batida pop homogênea que se reproduz à exaustão na geração Britney Spears não tem lugar ali. Stone escolheu o soul faz tempo -ou nem tanto assim, dada sua pouca idade. Quando criança mergulhava na vasta coleção de discos dos pais e tentava imitar gente como Aretha Franklin e Betty Wright, que depois se tornou sua parceira.
Sua estréia, aos 14 anos, aconteceu em um programa de calouros da rádio BBC. Pouco depois, já havia assinado com a gravadora S-Curve para gravar "Mind, Body and Soul", lançado mundialmente na última terça-feira e que chega ao Brasil pela gravadora EMI.
No meio do caminho, no entanto, surgiu um projeto paralelo para participar de uma compilação de clássicos da soul music ao lado de veteranos do gênero -"The Soul Sessions", que tão logo foi lançada criou uma imediata legião de admiradores da loirinha de voz grave e aveludada.
Numa idéia feliz, ela gravou, no meio dos sucessos dos anos 70, sua versão para "Fell in Love with a Girl" (como "Fell in Love with a Boy"), do White Stripes. O clipe da música lhe rendeu horas de exibição na MTV e a pôs em contato com sua própria geração. A dúvida -a mesma de toda vez que surge alguém com talento fora do convencional- é se irá conseguir manter seu estilo único.
O novo disco, com algumas composições próprias, faz uma tentativa de renovação e já resvala -de leve- no pop. As músicas em muitas vezes ainda mantêm o tom adolescente e carecem de algum desenvolvimento lírico.
Mas a moça tem ritmo. E voz -atributos que pareciam andar em baixa entre as novas estrelas adolescentes.
Outro ponto a favor: nada, por enquanto, da dualidade marqueteira ingenuidade-provocação sexual onipresente na vala comum do pop adolescente. A inglesinha de Devon sobe ao palco com sua banda sem nenhuma produção cenográfica ou os figurinos que costumam deixar dúvidas se o que importa é mesmo a música.
Ali em cima, sua maturidade musical -e sobretudo vocal- contrapõe-se a uma atitude quase infantil e despretensiosa, o que garante a Stone a aura "cool" que tantas de suas contemporâneas buscam sem sucesso.
No entanto, luzes amarelas: a moça já andou dizendo por aí que é fã de Justin Timberlake, o eterno ex de Britney, e que adoraria juntar os microfones com o rapaz.
Depois dos dois shows da semana passada em Nova York, durante os quais gravou seu DVD ao vivo, ela voltou para seu país natal, onde começa hoje a turnê mundial de "Mind, Body and Soul". Nenhuma passagem pelo Brasil está prevista ainda. Resta torcer para que ela não chegue ao país tarde -e corrompida- demais.


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