São Paulo, sábado, 07 de setembro de 2002

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FESTIVAL DE VENEZA

11 de setembro causa polêmica na 59 edição do evento

Sentimento antiamericano domina mostra italiana

ALCINO LEITE NETO
ENVIADO ESPECIAL A VENEZA

O festival de cinema de Veneza, que seguia morno e sem surpresas, ganhou ontem um inesperado fôlego polêmico e político, com a estréia mundial de "11'09"00 - 11 de Setembro", um filme coletivo de 11 diretores sobre a data trágica americana.
Um clima de antiamericanismo se espalhou por Veneza, ampliado por declarações do diretor da 59 Mostra Internacional de Cinema, o suíço Moritz de Hadeln. "Foram os americanos que inventaram os talebans. Muitos dizem até que Bin Laden foi instruído pela CIA", disse ele.
A situação é delicada porque o primeiro-ministro italiano Silvio Berlusconi (centro-direita) é um aliado incondicional dos EUA e de Bush.
A mostra é mantida pelo Estado. De Hadeln é o primeiro estrangeiro na direção, pelo que foi duramente atacado por nacionalistas. Ele foi a última alternativa encontrada pelo governo, depois que toda a direção anterior se demitiu em protesto contra a política cultural de Berlusconi.
A surpresa da imprensa italiana é tanto maior porque De Hadeln, que dirigiu o Festival de Berlim por 22 anos, é um simpatizante das companhias hollywoodianas. Fora isso, o festival de Veneza tem sido nos últimos anos uma das principais vitrines do cinema americano na Europa.
"11'09"00" foi produzido pelo francês Alain Brigand. Ele convidou 11 diretores de várias partes do mundo para realizarem histórias sobre o 11 de setembro que duram precisamente 11 minutos e 9 segundos. "Antiamericano? O dia em que não se puder fazer qualquer crítica à América estará terminada a liberdade de expressão", disse o produtor. "Não quis fazer um filme para celebrar o 11/ 9, mas para refletir sobre ele. Agora o debate está aberto."
Participaram do filme Samira Makhmalbaf (Irã), Claude Lelouch (França), Youssef Chahine (Egito), Danis Tanovic (Bósnia), Idrissa Ouedraogo (Burkina Faso), Ken Loach (Reino Unido), Alejandro Iñarritu (México), Amos Gitai (Israel), Mira Nair (Índia), Sean Penn (EUA) e Shohei Imamura (Japão).
Ken Loach denuncia a participação dos EUA no golpe contra Salvador Allende, que culminou em 11/9/1973. Os aplausos ao seu episódio foram tantos que a exibição teve que ser interrompida.
Nos jornais, as discussões sobre "11'09"00" coincidem com a notícia de uma grande manifestação que está sendo planejada pela esquerda em 14 de setembro. O cineasta Nanni Moretti é uma das figuras mais aguardadas no protesto, após virar figura-símbolo do antiberlusconismo e da retomada da esquerda na Itália.
Os debates do 11 de setembro apagaram o pequeno escândalo provocado por "Ken Park", de Larry Clark e Ed Lachman. O filme não tem pudores nas cenas de erotismo e chega a exibir a masturbação de um jovem do início ao auge, sem meias imagens. "Ken Park" é ainda um retrato da juventude americana, como em "Kids" e "Bully". Igualmente desesperado, acaba porém em clima de utopia sexual.
A Mostra de Veneza termina amanhã. Até sexta-feira, os mais cotados para receber o Leão de Ouro eram "Irmãs Magdalene", do britânico Peter Mullan, "Longe do Paraíso", do americano Todd Haynes, e "O Homem do Trem", do francês Patrice Leconte.



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