São Paulo, quinta-feira, 09 de junho de 2005

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CINEMA

Carta-protesto contra concentração de verba federal destinada a produções da região Sudeste deve ser divulgada hoje

Cine Ceará chega ao fim com polêmica anunciada

SILVANA ARANTES
ENVIADA ESPECIAL A FORTALEZA

É a noite da polêmica anunciada. O 15 Cine Ceará chega hoje ao fim, com a promessa de agitar (de novo) a discussão sobre a distribuição de patrocínio estatal à produção cinematográfica.
Na abertura da mostra, na última sexta, o diretor do festival, Wolney Oliveira, disse que na cerimônia de encerramento seria divulgada carta de profissionais do Norte e do Nordeste do país em reação ao recente encontro de cineastas e produtores do Rio e de São Paulo com o ministro José Dirceu (Casa Civil).
O grupo do Sudeste sustenta que o investimento estatal no cinema seria mais eficiente sem "pulverização" -com mais dinheiro para menos filmes.
Oliveira entende a sugestão como tentativa de concentrar a verba federal nas mãos do chamado "cinemão" -cineastas de renome, interessados em fazer filmes grandes em orçamento e público.
O "cinemão" é antípoda do "cineminha" -caracterizado por diretores pouco conhecidos, afastados do eixo Rio-SP, que se dizem adeptos do cinema de autor e de pesquisa, ainda que à custa do fracasso de bilheteria.
Mini flashback: em 2003, a política de patrocínios do governo Lula da Silva resultou na polêmica do "dirigismo cultural". Parte do setor cinematográfico protestou contra critérios formulados pela Secretaria de Comunicação (Luiz Gushiken) que exigiam "contrapartidas sociais" dos projetos a serem patrocinados.
A escolha dos beneficiados também levaria em conta sua afinidade com programas federais, como o "Fome Zero".
A gritaria tirou Gushiken da cena e levou à revisão da política de patrocínio federal pelo MinC (Ministério da Cultura) de Gilberto Gil. O MinC era contra os critérios de Gushiken, mas defendeu a distribuição descentralizada de recursos, como expressão da democratização do acesso ao cofre federal.
A discórdia atual, resumida na alcunha da "pulverização", significa concretamente o retorno do debate sobre critérios de concessão de patrocínio -mecanismo que impulsiona a produção de cinema no Brasil.
A premiação dos filmes em competição no Cine Ceará também é passível de polêmica. Três documentários e quatro ficções disputam os prêmios do júri.
A reação do público foi igualmente calorosa para os títulos de ambos os gêneros, exceção feita ao filme paraibano "Por 30 Dinheiros" (Vânia Perazzo e Ivan Hlebarov), cuja sessão terminou a 1h30 de domingo, com um Cine São Luiz quase vazio.
O cineasta Sergio Bianchi ("Quanto Vale ou É Por Quilo?") decidiu deixar Fortaleza, depois de se desentender com a crítica, no debate sobre seu filme, inscrito na disputa.
Carlos Reichenbach, que compete com "Bens Confiscados", permaneceu na cidade. Em 2003, chamado a receber o Prêmio Especial do Júri no Festival de Brasília, por "Garotas do ABC", Reichenbach se irritou com a pouco cortês justificativa dada à escolha - ao premiar "o argumento", o júri deu a entender que homenageava a intenção do cineasta, não o filme que ele de fato realizou.
Independentemente da temperatura dos discursos desta noite, um show de confraternização está previsto para depois da premiação. O músico baiano Riachão e as ceguinhas de Campina Grande, personagens do documentário em competição "A Pessoa É para o que Nasce", de Roberto Berliner, prometem incendiar a praça -de música.


A jornalista Silvana Arantes viajou a convite da organização do 15 Cine Ceará

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