São Paulo, sábado, 12 de junho de 2004

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RODAPÉ

Pensamento peregrino

MANUEL DA COSTA PINTO
COLUNISTA DA FOLHA

O filósofo e psiquiatra italiano Mauro Maldonato -que chega ao Brasil nesta semana para lançar "Raízes Errantes"- é o que podemos chamar de ensaísta, no sentido forte do termo. Em geral, usamos a palavra "ensaio" para denominar um texto teórico curto. Mais breve do que os tratados, menos rigoroso do que os "papers" acadêmicos, o ensaio seria uma forma mais solta de reflexão, ideal para cadernos de cultura.
Essa imprecisão jornalística nada teria de grave se não acabasse ofuscando uma das mais fortes tradições literárias, justamente aquela inaugurada pelos "Ensaios" de Montaigne e que teria continuidade nos moralistas franceses (Pascal, Chamfort) e, mais recentemente, em Camus, Barthes e Cioran.
Se essa lista de nomes mostra um predomínio francês, a Itália nos deu desde o "Zibaldone" de Leopardi até as perambulações de Claudio Magris pela Mittleuropa e, agora, o pensamento peregrino de Maldonato. Com todos eles, esse escritor napolitano compartilha uma forma de reflexão que é indissociável da criação de um universo pessoal de representações, referências biográficas, nostalgias, e que resulta (parafraseando Valéry) numa hesitação prolongada entre ficção e não-ficção.
Bem entendido, o ensaio não é um gênero literário, com regras que o escritor decide renovar ou subverter. Melhor dizendo, o ensaio não é literatura em sentido estrito, mas um tipo de pensamento que opera por aporias, impasses, suspensão de juízos, resultando numa escrita que introjeta o movimento de suas hesitações.
Como escreveu Camus em "O Mito de Sísifo": "Hoje, quando o pensamento já não pretende o universal, quando sua melhor história seria a de seus arrependimentos, sabemos que o sistema, quando é válido, não se separa de seu autor. O pensamento abstrato redescobre, enfim, seu suporte de carne".
A menção a Camus é especialmente válida para Maldonato. Os ensaios de "Raízes Errantes" lembram muito os textos de "Núpcias", os retratos camusianos de sua Argélia natal, em que se cruzam celebração e meditação, em que a paisagem mediterrânea é fonte e refúgio de um pensamento que renunciou ao imperialismo da razão.
"Ali, onde o arrebatamento da luz exalta a inclinação contemplativa, aprendi a desconfiar do reflexo encantado das idéias; a resistir ao culto da harmonia que pretende substituir a vida por gestos intelectuais; a não me deixar enredar pela tragicidade solar de uma luz que conspira contra a sombra, até cegar quem a ela dirigir o olhar. Naquelas margens, diante do "Aberto" daqueles lugares destinados à felicidade -onde a verdade parece inseparável da felicidade-, surge o sentido e a busca do "limite" e, com eles, a possibilidade da "medida". Eis que o Mediterrâneo é, antes de tudo, escola do limite", diz Maldonato em "Luzes Meridianas".
As imagens dessa "extensão líquida" se desdobram no tema dominante do "diário de bordo" de Maldonato: a relação com o outro, em sua dimensão tanto moral e epistemológica. A história da cultura mediterrânea se apresenta, assim, como "espaço de uma orientação -a busca do próprio Oriente- que afinal é a busca do Outro e, portanto, de si próprio".
Esse Outro aparecerá encarnado em companheiros de viagem como Edmond Jabès (judeu errante que encontra nos livros sua terra prometida), Leopardi (poeta do exílio metafísico), Fernando Pessoa (cuja heteronímia materializa o estranhamento de si) e com a personagem do "Wanderer", o viandante dos "lieder" do romantismo musical alemão.
Para Maldonato, como para Lévinas, o rosto do Outro assinala uma separação radical e a recusa de uma totalidade que o neutraliza. Isso será importante nas suas reflexões sobre ética (intolerância, multiculturalismo) e epistemologia, nas quais Maldonato recusa igualmente o cientificismo e o relativismo, contrapondo-os à "teoria da complexidade", a abertura da razão para o ainda não-racionalizável proposta por Edgar Morin (que assina o belíssimo prefácio de "Raízes Errantes").


Raízes Errantes
    
Autor: Mauro Maldonato
Tradução: Roberta Barni
Editora: 34 e Sesc-SP
Quanto: R$ 29 (192 págs.)
Lançamento: 15/6, às 20h, no Sesc Pompéia (r. Clélia, 93, SP). Inf.: www.sescsp.org.br.



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