São Paulo, sábado, 14 de outubro de 2006

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FÁBIO DE SOUZA ANDRADE

Gombrowicz: o elogio da imaturidade

Escrita do polonês toma sem pestanejar o partido dos avessos imperfeitos contra o lugar-comum da obra-prima

QUEM TROPEÇA na estranheza aliciadora do romance "Ferdydurke", de 1937, experimenta a surpresa agradável da insubordinação formal e do desconcerto cômico-satírico fazendo estragos nos trilhos da banalidade.
Anti-oficialesca e demolidora, a escrita do polonês Witold Gombrowicz (1904-1969) toma sem pestanejar o partido dos avessos imperfeitos contra o lugar-comum da obra-prima, canônica e previsível. Sabia onde pisava, portanto, quando num "rapto onírico" (Susan Sontag) abre esse romance de título intrigante, só agora traduzido para o português, rebaixando seu protagonista e narrador, Józio, um imaturo escritor na casa dos 30, a menino de escola outra vez.
Gombrowicz viria a descobrir, por experiência pessoal, "aonde se chega por estes caminhos tortuosos e anormais" que, profeticamente, escolhera para seu personagem. Convidado de um cruzeiro transcontinental, foi surpreendido pela eclosão da guerra, e algumas semanas de férias se estenderam num longo exílio sul-americano. Foram 24 anos de vida portenha, modesta, relativamente anônima em sua aristocrática auto-suficiência e rabugice, período em que a obra prosseguiu, à margem dos círculos literários argentinos, no "país das vacas", como chamava sua nova terra. Vieram "Transatlântico", 1952, e "Pornografia", 1960, ainda escritos em polonês, além dos "Diários", que, no retorno à Europa, renderam-lhe traduções e prêmios.
"A normalidade é um equilibrista sobre o abismo da anormalidade. Quantas demências ocultas estão contidas na ordem natural das coisas!", anota o Józio de "Ferdydurke". Prisioneiro da metamorfose inicial e dos encontros com os representantes da autoridade e da norma em que ela se desdobra, o percurso regressivo de Józio é desmascarador. Gombrowicz faz de seu elogio da imaturidade a imagem de uma fratura: família, professores, grão-senhores, alta cultura são flagrados de "bumbum" de fora, assentados sobre a base porosa do farisaísmo e da pose, repetidores de comportamentos caricatos e postiços que se cristalizam em tenebrosas "fuças".
Recém-menino, o narrador entrevê, sob o manto do moderno e do civilizado, ridícula comédia de caretas. Como Thomas Bernhardt, mas em registro rabelaisiano, ele tem horror aos fariseus, fugindo do sublime como os diabinhos procuram a farra (veja-se seu panfleto "Contra a poesia" e as divertidas páginas sobre a crítica). Como um existencialista patafísico, também sustenta que o inferno são os outros: somos todos prisioneiros de nossa alma exterior, a idéia que de nós fazem, mesmo e principalmente os mais imbecis. Daí sua opção pelo "eu" (longe das "cotêries" argentinas e do nacionalismo literário polonês) em detrimento do "nós" nivelador, opção que, duplamente à margem (polonês entre os europeus, europeu entre os sul-americanos), soube converter em vantagem e originalidade.


FERDYDURKE     
Autor: Witold Gombrowicz
Tradução: Tomasz Barcinski
Editora: Companhia das Letras
Quanto: R$ 49 (352 págs.)


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