São Paulo, sábado, 16 de dezembro de 2006

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Morre, aos 76 anos, o acordeonista Sivuca

Chamado de "poeta do som", o multiinstrumentista paraibano lutava havia um ano contra um câncer no pulmão

Sanfoneiro Oswaldinho diz que colegas perderam um "espelho"; para o músico Hermeto Pascoal, Sivuca era "irmão de cor e de som"


CÍNTIA ACAYABA
DA AGÊNCIA FOLHA

O músico e compositor Sivuca, 76, morreu na noite de anteontem, em João Pessoa (PB). Ele estava internado desde a última terça-feira no Hospital Memorial São Francisco, com fortes dores no pulmão e dificuldade para respirar.
Às 23h55 de quinta-feira, Severino Dias de Oliveira, o Sivuca, morreu de insuficiência respiratória causada por edema pulmonar. Cerca de 30 anos atrás, o músico descobriu que tinha câncer nas glândulas salivares. Desde então, passou por cirurgias e tratamentos para combater a doença.
Em novembro do ano passado, o câncer atingiu o pulmão, e o estado de saúde do músico começou a piorar. O corpo de Sivuca foi velado no Parque das Acácias, na capital paraibana. Até o início da tarde, cerca de 2.000 pessoas haviam passado pelo velório.
Músicos, políticos e fãs foram ao velório se despedir do "poeta do som", como era chamado. "Era uma pessoa conhecedora de vários instrumentos. Tocou mais de sete. Apesar de ser considerado um acordeonista jazzístico, nunca perdeu suas raízes. Isso é muito lamentável, perdemos um espelho", disse o sanfoneiro Oswaldinho.

História
Sivuca nasceu no dia 26 de maio de 1930 na cidade de Itabaiana, região do semi-árido paraibano. Começou a tocar sanfona aos nove anos. Em Recife, tornou-se aluno do maestro Guerra Peixe e iniciou sua carreira como instrumentista.
Depois de discos lançados no Brasil, viajou para a Europa a fim de apresentar e gravar suas canções. "Para mim, que sou sanfoneiro, ele tem uma importância tão grande como teve Luiz Gonzaga para o baião. Ele surgiu determinado, pretensioso, tocando clássicos, era maestro, estudou com Guerra Peixe. Teve uma importância extraordinária para o acordeão", afirmou o músico Dominguinhos.
Em 1964, mudou-se para Nova York, onde assumiu a direção musical da cantora africana Miriam Makeba, com quem realizou turnês internacionais. Com passagens pela Escandinávia, Sivuca quis morrer na Paraíba. "Ele voltou há aproximadamente três anos para a Paraíba, queria morrer onde nasceu", disse Gal Cunha Lima, produtora executiva do primeiro DVD, "Poeta do Som", que será lançado em janeiro.
As 12 músicas do DVD foram divididas com a mulher e parceira Glória Gadelha, com quem era casado havia 32 anos.

Últimos dias
Mesmo debilitado, Sivuca quis participar do show de lançamento do DVD, em 20 de novembro, em João Pessoa.
"Ele era tão iluminado, que quase ninguém percebeu que estava gravemente doente", disse Gal.
Sivuca tocou pela última vez a sua sanfona em público no último dia 30 de novembro, com a Orquestra Sinfônica da Paraíba. O instrumentista deu uma canja em dois de seus grandes sucessos -"João e Maria" e "Feira de Mangaio".
Ele foi enterrado com honras de Estado. Grupos paraibanos de música popular e erudita tocaram durante o sepultamento. O governo da Paraíba e o município de João Pessoa decretaram luto oficial de três dias.
Para o multiinstrumentista Hermeto Pascoal, as homenagens deveriam extrapolar o território paraibano. "As pessoas sempre me confundiram com o Sivuca. Assim, tenho ele como um irmão de cor e de som. Tenho certeza que ele será homenageado no mundo todo, e espero que o Brasil dê o valor que ele tem e não se omita", disse.


Colaborou ADRIANA FERREIRA SILVA, da Reportagem Local

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