São Paulo, Sábado, 17 de Abril de 1999
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RESENHA DA SEMANA
O fim da ficção

BERNARDO CARVALHO
Colunista da Folha

Quem corta fora as duas mãos e escreve sua experiência real com os pés tem muito mais chances de virar best seller do que quem escreve com a mão a história de um personagem ficcional que cortou as duas mãos e escreveu um livro com os pés. O raciocínio pode ser um tanto tortuoso, mas está na base do sucesso de alguns gêneros hoje tão na moda, como as biografias, em geral escritas com os pés.
A experiência mediada da ficção se perdeu; agora, o que o leitor procura é a ilusão de uma experiência mais direta e imediata por meio do livro, como se isso fosse possível. Quer acreditar que o que está lendo reproduz uma experiência real, a vida de gente real, no fundo tão "inventada" pela narração quanto qualquer ficção.
Na sua breve biografia de "Marcel Proust" (Objetiva), Edmund White chega a dizer que "vivemos na época do "romance de não-ficção'". E ousa classificar o autor de "Em Busca do Tempo Perdido" como precursor desse novo gênero com que hoje se tenta abolir a idéia de ficção para atender a uma maior demanda de mercado.
O livro de White prova que quem lê biografias não lerá necessariamente literatura; uma não é ponte para a outra, mas quer substituí-la. Sua biografia é como um guia turístico da literatura para quem se interessa mais pela sexualidade do autor do que pelo que ele escreveu, com curiosidades do tipo: "Proust foi (...) a Provins (além do local atual da Disneylândia de Paris)".
Sua inteligência já fica comprometida desde a segunda página, quando cita um nome pouco significativo como o de Andrew Holleran, autor do "romance gay norte-americano mais importante dos anos 70" (e daí?), mas vai desmoronar mesmo ao tentar explicar por que Proust, mestre dos pastiches, evitou parodiar escritores de estilo mais simples e direto: "Exatamente como os travestis evitam "produzir" beldades despojadas como Audrey Hepburn e se inspiram em mulheres excessivamente construídas como Mae West ou Barbra Streisand" (!).
White está mais preocupado em saber se Proust se adequa ao modelo e ao gosto do gay americano politicamente correto de hoje do que em qualquer outra coisa. Um novo moralismo que expõe não a ignorância do biógrafo, mas a obtusidade da sua militância. Para completar, a edição brasileira nem se preocupou em adaptar a bibliografia ao final que, entre outras, dá à obra de Proust o título original de "In Search of Lost Time".
Pietro Citati, autor de "Proust" (Companhia das Letras), é mais inteligente e sofisticado: faz questão de dizer que seu livro não é uma biografia, mas um "romance-ensaio". Citati inventou o gênero até certo ponto lúdico -e até certo ponto grotesco- da biografia-pastiche, em que a vida dos escritores é descrita no estilo deles.
E usa as imagens mais afetadas no seu mimetismo de Proust. Pode falar da "ânsia dolorosa e irreprimível" do escritor. E depois continuar com "trêmula gazela amorosa" e frases do tipo "percorrera ileso o horrível país dos sonhos" ou "Qual as Danaides, ele enchia sem fim seus tonéis de dor".
Mas o pastiche -que Proust ao menos praticou com humor- esgota o original; não só o mimetismo de Citati reduz o "estilo Proust" a lugar-comum, mas a vontade de tirar da obra literária a realidade do autor esvazia qualquer enigma na obviedade de uma explicação psicológica.
Apesar de todas as suas reservas em relação à biografia tradicional, Citati ainda precisa, como White, reinterpretar à sua maneira o que Proust pontificou em "Contra Sainte-Beuve" para poder fazer as pontes -inevitáveis mesmo numa biografia de pretensões "literárias"- entre autor e obra, e entre os personagens e as pessoas reais que os teriam inspirado.
Proust combateu enfaticamente o método biográfico que Sainte-Beuve propunha para a compreensão das obras literárias. Defendia a idéia mais moderna -mas que parece estar saindo de moda- de que o eu da vida do autor nada tem a ver com o eu que escreve a obra.
Citati prefere ver as coisas de um outro ângulo: "Quantas coisas Proust tinha em comum com Sainte-Beuve! (...) Quanto à obra-prima de Sainte-Beuve, "Port-Royal", essa encantadora fluidez narrativa, que absorve em si todas as resistências, já não é um eco antecipado (...) da "Recherche'?".
Em resposta a Laure Hayman, que deve ter lido Proust como se fosse a revista "Caras" da época e ficou indignada ao se reconhecer no personagem de Odette, uma mulher do mundo, o escritor enviou uma carta que hoje poderia ser endereçada também a Citati e a White -e a quem mais tentar vender a ilusão oportunista e contraditória do "romance de não-ficção": "As mulheres de sociedade, à exceção das que são notáveis, não têm a menor idéia do que é a criação literária. Na minha lembrança, a senhora era notável. Sua carta me decepcionou. Odette é o contrário da senhora".

Livro: Marcel Proust Lançamento: Objetiva Autor: Edmund White Quanto: R$ 16 (160 págs.)

Livro: Proust Lançamento: Companhia das Letras Autor: Pietro Citati Quanto: R$ 29 (330 págs.)



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