São Paulo, quinta-feira, 20 de setembro de 2007

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Bienal do livro do Rio

Escritor relata viagem a um Brasil de mentira

O colombiano Samper Pizano veio debater romance sobre a ditadura brasileira

Em "Impávido Colosso", Samper Pizano conta como conheceu o país em 1972, durante visita patrocinada pelo governo Médici

SYLVIA COLOMBO
ENVIADA ESPECIAL AO RIO

"O lugar tem uma vista maravilhosa de São Paulo, vai ser muito divertido!" O colombiano Daniel Samper Pizano logo desconfiou ao ouvir a frase. Como a cidade caótica e cheia de favelas de que tanto ouvira falar poderia lhe proporcionar um jantar com esse cenário?
Pois foi dessa maneira que foi acordado, em 1972, num quarto do hotel Hilton paulistano, recém-chegado de Bogotá, por uma jovem anfitriã brasileira designada a servir-lhe de guia durante seus dias no Brasil.
Trinta e cinco anos depois, Samper, 62, voltou ao Rio para debater literatura latino-americana com o argentino Rodolfo Fogwill e falar de seu "Impávido Colosso" (Record, 240 págs., R$ 42) na 13 Bienal do Livro, que acontece no Riocentro até o próximo domingo.
Na obra, o escritor narra de modo romanceado as impressões que teve daqui quando veio conhecer o país com um grupo de jornalistas de diferentes nacionalidades.
A viagem tinha sido planejada pelo governo Emílio Garrastazu Médici, e o Brasil vivia ao mesmo tempo a fase mais terrível da ditadura militar (1964-1985) e o chamado "milagre brasileiro". "É claro que a idéia era nos mostrar só a segunda parte", disse Samper à Folha.
Seguiram-se visitas a cartões-postais, viagens ao Rio, Brasília, São Paulo, Amazonas, um encontro com o então ministro da Fazenda, Delfim Netto, e um passeio por obras em construção -como a Transamazônica- e inaugurações. "Logo percebemos do que se tratava. Não nos mostravam o Brasil real e ainda usavam nossa imagem para fingir um interesse estrangeiro pelo país."
No romance, o grupo se divide entre os que preferem não ver e seguem aproveitando as "férias pagas" e os que decidem investigar melhor a realidade. Interessam-se pelo tema dos desaparecidos, entrevistam o bispo dom Helder Câmara e, aos poucos, começam a incomodar de verdade os anfitriões.
"Por aquela época, Nixon havia dito que para onde se inclinasse o Brasil, toda a América Latina se inclinaria. Fiquei encantado. Vim buscar um país e encontrei um continente."
Logo, também, surgiu a amizade com Millôr Fernandes, que incentivou a edição do romance aqui. Samper admira e evoca o estilo e a ironia do brasileiro em seus textos.
Desde 1986 morando em Madri, Samper continua com os pés na Colômbia. Tem semanalmente um espaço humorístico no jornal "El Tiempo", do qual foi editor, e escreve sobre seu país nos espanhóis "El País" e "La Vanguardia".
Irmão de Ernesto Samper Pizano, ex-presidente da Colômbia que foi acusado de ter tido sua campanha eleitoral financiada pelo Cartel de Cali (mas absolvido em 1996), o autor vê melhorias no país hoje. "Alvaro Uribe é muito melhor do que Pastrana, devolveu segurança a lugares antes perdidos para a guerrilha. Por outro lado, é autoritário e muito religioso, o que traz riscos." Samper diz que não considera arriscada a aproximação entre Uribe e o venezuelano Hugo Chávez, por conta das negociações por um acordo humanitário com as Farc (Forças Armadas Revolucionárias da Colômbia). "Se Chávez fracassar, a Colômbia sairá ganhando. Se for bem, os seqüestrados voltarão. Então Uribe só pode ganhar com essa aliança."
O escritor criticou a intelectualidade internacional. "Fora da Colômbia, os de esquerda apóiam as Farc, por acharem que é um movimento ideológico e anti-americano. Mas dentro do país nenhum intelectual está de acordo. Especialmente os de esquerda, que tentam ao máximo mostrar que essa conexão não existe."
Sobre o legado de Gabriel García Márquez -que está sendo homenageado na Colômbia por seus 80 anos-, Samper diz que este não é só literário. "É algo mais profundo e nacional. Eu não diria que ele é nosso Shakespeare, e sim nosso Pelé", conclui.


A jornalista SYLVIA COLOMBO viajou a convite da organização do evento


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