São Paulo, quinta-feira, 20 de setembro de 2007

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Bebida

Cerveja de panela

Fabricação caseira da bebida cresce no Brasil, e cervejeiros se unem em busca de mercado comum; concurso no Rio julgará 49 marcas artesanais no próximo dia 29

JANAINA FIDALGO
DA REPORTAGEM LOCAL

Existe uma turma que já não se contenta mais em reunir os amigos em torno de uma mesa de bar, estender o braço e pedir ao garçom uma cerveja gelada. Nas horas livres, eles se recolhem à cozinha de casa para produzir sua própria cerveja, num processo que, de cara, leva oito horas (e, depois, quase um mês para a bebida maturar).
Cultura antiga e superdifundida em países como os Estados Unidos, a produção caseira de cerveja não é nova no Brasil, mas está em ascensão e tem ganhado cada vez mais adeptos, os chamados "home brewers". Com eles, surge uma leva de associações, concursos e blogs.
Fundada, como convém, na mesa de um bar, a ACerva Carioca foi uma das pioneiras. A associação nasceu como uma brincadeira entre amigos e, em menos de um ano de existência, chega à segunda edição de um concurso nacional de cervejas artesanais. No último sábado deste mês, serão julgadas 49 cervejas, contra as 25 de 2006.
"Com o advento da internet, as pessoas que faziam, timidamente, cerveja em casa começaram a descobrir outros que também fabricavam, e a coisa cresceu", diz Sergio Fraga, 38, um dos fundadores d'ACerva.
Competição como a da associação carioca já tem pares em outras cidades. Em agosto, Campinas sediou o 1 Concurso de Cervejas Caseiras de São Paulo. Na capital mineira, a terceira edição do BH Home Bier está prevista para novembro.
E até uma microcervejaria artesanal, a catarinense Eisenbahn, está promovendo um concurso para eleger um cervejeiro caseiro. O vencedor fabricará um lote de sua receita (3.000 litros) em Blumenau.
"Temos mais é que nos unir e desenvolver um mercado em comum. Fazer o brasileiro perceber que cerveja não é sinônimo de pilsen estupidamente gelada", diz Juliano Mendes, diretor do grupo catarinense.

Bisavó cervejeira
O mundo dos cervejeiros caseiros é formado, predominantemente, por homens na faixa de 30 a 40 anos. Em geral, são profissionais bem-sucedidos que compartilham a paixão pela bebida e fizeram da fabricação artesanal um hobby.
Curiosamente, alguns foram influenciados por mulheres. É o caso do advogado Leonardo Botto, 30, vencedor das duas categorias (com mais de uma colocação) do primeiro concurso d'ACerva Carioca.
"Minha bisavó alemã fazia cerveja em casa, no Rio. Não a conheci, mas minha mãe vivia contando histórias das garrafas que estouravam", diz. "Comecei a estudar sem pensar em fazer. Era um sonho para o qual eu não via possibilidades."

De casa para o bar
Mais que inspiradora, uma vizinha de origem alemã foi quem ensinou o, à época, adolescente Gustavo Dal Ri, 37, a fazer cerveja. Depois de muitos anos de produção caseira, o engenheiro químico virou microcervejeiro e hoje vende a produção da gaúcha Schmitt.
"Trabalhei numa cervejaria multinacional e sempre almejei ter a minha. Hoje sou concorrente deles", brinca. "Foi uma grande batalha. Vários lotes ficaram intragáveis. A sorte é que os meus amigos eram exigentes. Sabia que, se conseguisse agradá-los, não teria problemas para vender fora."
No Brasil, não há uma definição legal do que é uma microcervejaria artesanal. Mas, entre as pessoas do meio, há alguns consensos: 1) ser independente (não pertencer a uma cervejaria industrial); 2) ser tradicional (usar cereais maltados, como cevada e trigo, que melhoram o sabor da bebida); 3) produzir até 200 mil litros/mês.
Outro cervejeiro caseiro que se prepara para entrar no mercado é o gerente de projetos da área de informação Sergio Fraga, d'ACerva Carioca.
"É um orgulho ver a bebida saindo, dando certo, e os amigos elogiando. Aliás, quanto mais cerveja você faz, mais amigos aparecem. Há uns caras-de-pau que mandam a garrafa vazia para eu encher", diz. "Até que um deles se interessou, achou que era viável e está capitalizando o projeto."
Visto por muitos "home brewers" como uma transição natural, o sonho de transformar a produção artesanal em profissão não é acalentado por todos. Apesar de ter uma parte de sua produção vendida em bares, o engenheiro agrônomo João Gonçales, 36, da Dana Bier, diz que "ainda é um cervejeiro caseiro". "A comercialização aconteceu por acaso. O objetivo não é ganhar dinheiro com cerveja. Se eu tiver de investir, deixará de ser um hobby prazeroso para virar pressão."
No caso do ex-cervejeiro caseiro Marco Antonio Falcone, 44, deixar a empresa de engenharia elétrica onde trabalhava para abrir com dois irmãos a microcervejaria mineira Falke Bier, em 2004, foi um processo planejado. "Nós incentivamos novos empreendedores porque existe uma demanda grande por produtos de qualidade. Hoje, há uma legião de apaixonados por cerveja artesanal que não consegue mais beber essas cervejas estandardizadas", diz.


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